Comece um negócio, chame ele de “startup”, use umas roupas descoladas, compre uns puffs coloridos para colocar no seu escritório 3m por 3m e junte uma grana para conhecer o Vale do Silício. BOOM, a mágica está feita!
Esta é a fórmula barata vendida pelos gurus na internet.
Muita coisa acontece no backoffice da construção de um grande negócio. E acredite: muita gente que nem sabe o que é uma startup vai te falar uns termos bonitos em inglês e até vender te vender uns livros. Balela!
Existe uma ciência por trás da construção de um negócio que cresce de forma exponencial: o Blitzcaling. Sem fórmulas mágicas ou “fique rico em 90 dias”. O conceito surgiu com um cara que ajudou a fundar o PayPal, co-fundou o Linkedin e foi um dos primeiros investidores do Facebook. Pegue um café e venha comigo e Reid Hoffman.
A guerra-relâmpago (ou: Blitzkrieg)
O termo Blitzkrieg se refere a uma estratégia militar que utiliza forças móveis e extremamente enxutas para operar ataques surpresas em um espaço de tempo muito curto. O objetivo é atuar no timing correto para que a força inimiga não tenha tempo de reação.
Cravado durante a Segunda Guerra Mundial, a estratégia consistia fazer os comboios carregarem somente os equipamentos necessários e se movimentarwm em uma velocidade muito grande para surpreender os inimigos e aniquilar a batalha antes mesmo de começar.
O termo Blitzcaling adota uma postura próxima: proporcionar crescimento extremamente veloz para startups em comparação com as técnicas racionais de gestão.
” Blitzscaling é o que você faz quando precisa crescer muito, muito rapidamente. É a ciência e a arte de construir rapidamente uma empresa para atender a um mercado grande e geralmente global, com o objetivo de se tornar o pioneiro em escala. Este é empreendedorismo de alto impacto” (Reid Hoffman)
Estamos na era da organização exponencial. Abra esse link em uma nova aba para ler no final.
Blitzcaling (ou: como escalar sua startup)
O grande erro das startups que falham no início da operação é gastar energia e recursos desenvolvendo soluções com foco no problema errado. Ou melhor: “desenvolvi um excelente produto que as pessoas não precisam”.
Quando conseguem encontrar um PMV (Product Market Fit) ideal (ou seja: desenvolver uma solução para um segmento de cliente que possui um problema claro), as startups focam os próximos passos no ganho de escala de duas grandezas: escala da base de clientes e escala da receita.
A maioria das startups, porém, que entra em ritmo de tração deixa de investir energia na escala de um outro ativo extremamente importante: capacidade organizacional.
É aqui que o Blitzcaling entra: um modelo que entende o crescimento de uma startup em cinco etapas, com características e funções diferentes entre si: família, tribo, vila, cidade e nação.
FAMÍLIA (Produtos e Pessoas)
A primeira fase do Blitzcaling possui como foco encontrar uma oportunidade de mercado na qual a equipe tenha uma vantagem competitiva clara. Encontrar um problema para resolver não é tão simples quanto parece, e este deve ser exatamente o foco desta etapa.
Enquanto está no estágio de FAMÍLIA, a equipe deve começar o desenvolvimento do produto tendo em vista uma proposta de valor extremamente clara para um segmento de clientes que demonstra um problema real.
É óbvio que nenhuma startup começa crescendo e escalando no primeiro dia de vida. Portanto, neste estágio é permitido (e recomendado) fazer coisas não escaláveis para provar com o menor custo e esforço possível se o problema identificado é algo que vale a pena ser trabalhado.
“Não se preocupe com a estratégia aqui. Seja qual for a estratégia, vai ter que mudar de qualquer maneira” (Reid Hoffman)
A equipe deve, nesta etapa, encontrar o Product Market Fit ideal e começar a formação do time contratando as primeiras pessoas, pensando em complementariedade. John Lilly, sócio da Greylock resume esta etapa em uma frase: “produto, produto, produto, pessoas, pessoas, pessoas”.
TRIBO (Ganho de Mercado)
Que comecem os jogos. A fase de TRIBO se resume na execução e ajuste da proposta de valor ao mercado. Nesta etapa, o time começa a crescer em funções operacionais para permitir velocidade no desenvolvimento do produto.
Este é um excelente momento para começar a pensar em estratégias de financiamento do crescimento, pois já existe validação da proposta de valor para o segmento de clientes identificado. O financiamento pode acontecer via capital de risco ou receita operacional da empresa.
“O principal componente dessa fase é ser capaz de se mover muito, muito rapidamente” (Allen Blue)
A equipe deve montar um plano para garantir movimentação em uma velocidade maior do que potenciais concorrentes que começarem a aparecer.
Mesmo o foco sendo aumentar a base de clientes e receita, a startup ainda não está em escala. Por isso, pode ser uma estratégia do time deixar o negócio operar em regime de queima de caixa para proporcionar o crescimento esperado.
VILA (Momento da Escala)
Este é momento da primeira grande certeza na startup que acontece após a validação do problema, produto e modelo de negócio: “temos um negócio global”. O foco, agora, deve ser em encontrar a melhor estratégia possível para ganho de escala.
É importante ter clareza sobre o posicionamento em relação a concorrência, pois isso ajudará a entender o melhor momento de escalar o negócio.
Neste estágio, o negócio já passa de 150 pessoas, portanto é importante investir em manutenção da cultura organizacional da empresa. Além disso, é preciso escalar o ritmo das operações, focando em qualidade de atendimento ao cliente e otimização do desenvolvimento de produto.
CIDADE (Eficiência e Velocidade)
A quarta etapa do Blitzcaling se resume em melhorar a eficiência da organização como um todo. Até este momento, é aceitável fazer “o trabalho sujo” para permitir o negócio ganhar escala em pouco termo. A partir de agora, a eficiência é nova regra.
“Você também precisa ter uma confiabilidade muito maior; às vezes, a ineficiência que você aceitou ao passar da fase da aldeia não é mais sustentável em escala maior” (Reid Hoffman)
O foco é otimizar (ou recriar totalmente) os processos da organização para garantir desburocratização e manutenção da velocidade de crescimento da empresa. Nesta etapa, pode ser que a empresa tenha diversificado (ou comece a diversificar) os produtos e pulverizar sua receita (assim como Google Adwords ou o Pacote Office).
Na fase de CIDADE, o negócio tomou uma proporção de organização e cara de empresa. Provavelmente, neste estágio, o negócio passe de 1.000 colaboradores e o impacto da organização começa a ser global.
NAÇÃO (Visão Global)
O último estágio do Blitzcaling é o maior desafio das startups que chegam no topo: manter o crescimento com cara de startup. O negócio passa a ser global, tanto em impacto a clientes quanto em distribuição geográfica da equipe.
O desafio é fazer escalar não somente a capacidade organizacional e de produtos, mas também a cultura da startup. A linha diversificada de produtos e a distribuição global fazem com que a organização tenha que focar em uma estratégia extremamente consolidada, porém, flexível.
“Referência” sim, “fórmula” nunca
A Amazon possui mais de 150.000 funcionários espalhados pelo mundo. Google possui mais de 60.000 colaboradores. Junto com Uber, Netflix, Spotify, entre outras, elas moldam a rotina de milhões de pessoas no mundo todo diariamente.
O Blitzcaling é o modelo que explica o crescimento dessas e de outras dezenas de startups que alcançaram o patamar global e conseguiram manter o ritmo de crescimento e cultura de startup. Porém, está longe de ser uma fórmula mágica de construção de um negócio milionário.
Diferente do que muitos livros de “6 passos para ficar rico” dizem, construir um negócio global envolve muita ciência e dedicação. Tenha um problema real para trabalhar e reúna uma equipe de alta performance com foco global. Em resumo, o Blitzcaling é isso: construir negócios globais em alta velocidade.
