Como criar (e sustentar) uma comunidade de startups?

O ano era 2018 e eu voltava de São Paulo com um grupo de empreendedores de uma cidade pequena do interior de São Paulo de um evento de startups na maior capital do país com uma decisão simples no grupo: “precisamos criar uma comunidade de startups na nossa cidade”.

De lá para cá, e com a comunidade formada, foram mais de 100 startups participantes de programas ou iniciativas de inovação na região, mais de 2.500 pessoas impactadas em pelo menos 30 eventos e mais de uma dezena de novos CNPJs criados pelas (ou com o apoio das) pessoas dessa comunidade.

Olhando de trás para frente, os acontecimentos parecem óbvios, mas na época não fazíamos ideia do impacto da decisão que tínhamos acabado de tomar. A cidade é Barretos (SP) e a comunidade é o Bruto Valley, que foi considerada em 2022 uma das 10 comunidades revelação do país pelo Startup Awards, a maior premiação do ecossistema brasileiro de startups.

Esse texto não tem o objetivo de contar a história do Bruto Valley (ou outras comunidades de startups, mesmo que a história seja extremamente relevante e sim, faremos isso em breve), mas sim as motivações e os aprendizados de como conseguimos criar e manter uma comunidade de startups ativa por mais de 5 anos em uma cidade de pouco mais de 120 mil habitantes.

Trabalhando há quase 12 anos na área de inovação, vi repetidas vezes empresas, instituições de ensino ou poder público começarem iniciativas de comunidades locais e falhar ao longo do tempo. Vou explorar abaixo a minha resposta (pessoal) para a pergunta que recebi diversas vezes de pessoas querendo fazer benchmarking com a nossa comunidade: como criar (e sustentar) uma comunidade de startups?

Antes, uma breve definição.

Uma comunidade de startups é um sistema colaborativo composto por empreendedores, investidores, mentores, aceleradoras/incubadoras, universidades, instituições governamentais e outras partes interessadas que compartilham o objetivo de fomentar o surgimento e crescimento de startups. Essas comunidades fornecem um ambiente propício à troca de experiências, recursos e oportunidades, facilitando a criação, desenvolvimento e escalabilidade das startups de um território.

Mas, preste atenção neste detalhe importante: é uma comunidade de STARTUPS. Sendo assim, uma comunidade NÃO deve nascer (ou crescer) apenas com instituições de apoio, empresas e organizações, mas sim com (e pelas) startups locais.

Esse detalhe faz toda a diferença, pois são os empreendedores de startups que trazem as demandas e os desafios que direcionam os esforços da comunidade local.

Fonte: Startup Communities: Building an Entrepreneurial Ecosystem in Your City, Brad Feld

No livro Startup Communities: Building an Entrepreneurial Ecosystem in Your City, Brad Feld define como um grupo de pessoas que estão engajadas em criar e apoiar empresas inovadoras em uma determinada localidade, baseada em quatro princípios: liderada por empreendedores, de mentalidade de longo prazo, inclusiva e focada em atividades contínuas.

Então, como criar (e sustentar) uma comunidade de startups?

Baseado em centenas de horas de estudo e vivência com comunidades de startups nos últimos 12 anos, tentei resumir a resposta em uma frase, que explicarei melhor abaixo: (1) Reunindo um grupo diverso de empreendedores de startups (2) com um mesmo propósito de impacto de longo prazo, (3) realizando iniciativas contínuas de fomento e geração de resultados para as startups da comunidade.

Essa é uma definição pessoal e não envolve na totalidade definições exatas e científicas de comunidade de startups. Se você trabalha na área de inovação de uma empresa e/ou se relaciona com startups, recomendo fortemente a leitura do livro do Brad Feld para entender o conceito (e estratégias para construir) comunidade de startups.

Vamos à minha definição, por partes.

1. Reunindo um grupo diverso de empreendedores de startups…

A diversidade é um dos pilares centrais de uma comunidade de startups saudável. A inclusão de pessoas com diferentes origens, experiências, habilidades e perspectivas é essencial para a inovação e o crescimento da comunidade. É importante que a comunidade se relacione com diferentes atores do ecossistema, incluindo universidades, aceleradoras, governos e outros atores que colaboram para fomentar o empreendedorismo e a inovação.

Porém, é fundamental que o grupo seja liderado por empreendedores de startups, e não por organizações de fomento ou instituições de ensino.

Empreendedores em diferentes fases de desenvolvimento (early stage, scale-up, etc.) devem fazer parte do grupo, para que aqueles que estão começando possam aprender com os mais experientes, enquanto os mais avançados podem encontrar novas oportunidades de colaboração e mentoria.

Em Barretos, o Bruto Valley nasceu com cerca de 5 startups “fundadoras” da comunidade e hoje reúne um grupo de trabalho de aproximadamente 10 pessoas responsáveis por liderar as iniciativas, enquanto o grupo geral da comunidade conta com mais de 250 participantes, na maioria empreendedores ou potenciais empreendedores.

Se você pretende criar uma comunidade de startups na sua região (ou em torno da sua empresa), o primeiro passo é reunir um grupo diverso de empreendedores de startups.

2. …com um mesmo propósito de impacto de longo prazo…

Alinhar a comunidade em torno de um propósito compartilhado e uma visão de longo prazo é fundamental para manter a comunidade coesa e motivada ao longo do tempo, independentemente dos desafios que surgem.

Esse propósito deve ser maior do que apenas o sucesso individual das startups, focando no impacto coletivo e no desenvolvimento da comunidade como um todo.

Através de OPPs (oficinas de planejamento participativo), desde 2019 no Bruto Valley reunimos a comunidade anualmente para discutir o propósito e criar as ações estratégicas que irão nortear as iniciativas específicas.

Brad Feld enfatiza que comunidades de startups são construídas ao longo de décadas, não de anos. Isso requer paciência, resiliência e a compreensão de que os resultados podem demorar.

Se você pretende criar uma comunidade de startups na sua região (ou em torno da sua empresa), precisa responder à pergunta: qual a motivação por trás da vontade de criar uma comunidade de startups?

3. …realizando iniciativas contínuas de fomento e geração de resultados para as startups da comunidade.

A comunidade de startups precisa ser constantemente nutrida por atividades que mantenham os membros engajados e ativos. Eventos e iniciativas de encontro criam oportunidades de networking, aprendizado e visibilidade para os empreendedores.

Atividades como hackathons, meetups, workshops, palestras e sessões de mentoria são essenciais para manter a comunidade viva e conectada. Esses eventos incentivam a troca de experiências e colaboram para a criação de novos projetos e parcerias e não devem ser feitos “quando possível”, mas sim planejados e organizados de forma a cumprir os objetivos esperados.

Para manter a comunidade motivada, é importante que as iniciativas gerem resultados visíveis, seja por meio da criação de novas startups, investimentos recebidos ou expansões de mercado. As conquistas das startups devem ser celebradas e compartilhadas com a comunidade, reforçando o valor do ecossistema.

Criar e sustentar uma comunidade de startups não é uma tarefa simples, mas, ao longo dos anos, é um processo que traz recompensas incalculáveis, tanto para os empreendedores quanto para a região onde a comunidade se desenvolve.

Com a combinação certa de diversidade, um propósito de longo prazo e iniciativas contínuas, é possível formar um ecossistema vibrante que impulsiona a inovação e o empreendedorismo de maneira sustentável.

No caso do Bruto Valley, esses princípios provaram ser fundamentais, transformando uma simples ideia em um motor de crescimento regional. O caminho para criar uma comunidade de startups exige comprometimento, resiliência e colaboração, mas quando bem conduzido, o impacto pode ser profundo e duradouro.