Fora do hype: existe espaço para mais programas de aceleração no país?

“Participei de um programa de aceleração por 5 meses e ganhei três tapinhas na costas de ‘parabéns’ no final”. “Fui selecionado para um programa de aceleração e tive que assistir aulinhas semanais de empreendedorismo”. “Nunca consegui conversar com um executivo sobre uma possível parceria, mesmo tendo sido aprovado para o programa da empresa”.

Poderia listar aqui outras dezenas de frases (reais) que ouvi de empreendedores nos últimos anos sobre a frustração em participar de alguns programas de aceleração de startups, principalmente programas corporativos.

É claro que essa não é a regra, pois existem excelentes programas de aceleração de startups no Brasil em diversos segmentos. Porém, o crescimento do número de programas de aceleração no Brasil (e no mundo) e a estratégia muitas vezes (cada vez mais) comum em vincular esse tipo de iniciativa de inovação aberta (exclusivamente) com posicionamento de marca inovadora, criou uma geração recente de empreendedores frustrados com esses programas.

O interesse crescente de grandes empresas em abrir relacionamento com startups criou uma necessidade (ou quase uma regra) de corporações criarem seus próprios programas de aceleração.

O problema é que, muitas vezes, o corpo executivo demanda essa “obrigação” a um corpo técnico pouco qualificado que, por sua vez, “copia e cola” modelos de outros programas resultando em iniciativas superficiais e nada efetivas para empreendedores de startups.

Como exemplo, já vi “programas de aceleração” (sim, entre aspas: explico abaixo) composto por uma banca de seleção, dois encontros online e ao vivo com gerentes de uma grande empresa que culminaram em um pitch day para executivos onde, claramente, o interesse estava muito mais em fazer parte do teatro da inovação para postar algumas fotos legais nas redes sociais do que efetivamente construir relacionamento sério com startups.

Essa edição da newsletter contribui com algumas visões pessoais deste tema (que inclusive, parte dele, foi tema da minha dissertação de mestrado) e insights criados a partir do relacionamento direto com centenas de empreendedores de startups nos últimos anos.

Aceleradoras de startups aceleram?

Apesar de ser um fenômeno em rápida expansão pelo mundo, as aceleradoras de startups ainda possuem uma história recente. A primeira aceleradora foi fundada por Paul Graham nos Estados Unidos da América apenas em 2005, a Y Combinator.

Dois anos depois, em 2007, outros dois investidores de startups, Brad Feld e David Cohen, fundaram a TechStars. A partir destes dois primeiros modelos, aceleradoras e programas de aceleração começaram a ser criadas ao redor do mundo, principalmente após 2010, estimando-se que existam mais de 2 mil aceleradoras no mundo hoje.

Diversas pesquisas no mundo já estudaram o efeito dos programas de aceleração nas startups, como por exemplo:

  • uma startup que opera sem apoio de aceleradoras necessita, em média, de 482 dias para validar as hipóteses dos seus produtos. Para startups que participam de programas de aceleração, o tempo é reduzido para 334 dias (Fonte)
  • startups egressas de programas de aceleração possuem uma taxa de sobrevivência 23% superior ao de startups que não participam (Fonte)

Mas, como aceleradoras e programas de aceleração (deveriam) funcionar?

A principal atividade de uma aceleradora é apoiar novos negócios na construção, validação e acesso ao mercado de produtos inovadores. Isso acontece por meio dos programas intensivos com tempo de duração limitado e apoia um grupo específico de startups em cada edição do programa (batches).

Aceleradoras (e programas de aceleração) de startups possuem características bem específicas e diferentes dos modelos de incubadoras e capital de risco, conforme abaixo:

Fonte: What Do Accelerators Do? Insights from Incubators and Angels (Susan Cohen, 2013)

As aceleradoras de startups se diferem de outros mecanismos de apoio a negócios inovadores, tais como fundos de investimento e incubadoras de negócios. A principal diferença está no próprio objetivo da aceleradora que, geralmente, aporta capital em troca de participação no negócio (compartilhamento de propriedade, revenue share ou mesmo participação no quadro societário), diferente dos modelos de incubadoras tradicionais que, geralmente, não possuem fins lucrativos e oferecem serviços e espaço de trabalho aos negócios.

Apesar da ampla difusão dos programas de aceleração de startups e aceleradoras no Brasil e no mundo, os resultados gerados pelas aceleradoras estão longe de ser claros e a forma de acompanhamento destas startups em processo de aceleração ainda são heterogêneos.

Um relatório publicado pelo NESTA, agência de inovação independente do Reino Unido (The Startup Factories: The rise of accelerator programmes to support new technology ventures – link) define as seguintes características para uma aceleradora de startups:

● Um processo de seleção de startups altamente competitivo;

● Aporte de capital para operação da startup, geralmente em troca de equity;

● Foco em pequenas equipes e não em fundadores individuais;

● Tempo limitado de suporte, com eventos programados e mentoria intensiva;

● Turmas de aceleração, geralmente chamadas de “batches” ou “cohort”.

Na prática, porém, é bem comum encontrar programas de aceleração de startups que diferem (e muito) dessa definição da agência NESTA ou das características raízes dos programas de aceleração, conforme a tabela anterior.

Abaixo, listo alguns exemplos nada positivos de práticas que percebi crescerem de forma acelerada nos últimos anos no ecossistema de inovação relacionados aos programas de aceleração. Dei o nome para essas práticas de “fuja do hype” de 01 a 05:

Fuja do hype #01 | Programas de aceleração “porta aberta”

Na expectativa de fazer uma página bonita no site institucional para mostrar que a empresa acelerou mais de 500 startups, algumas empresas adotam a prática de aumentar (ou abrir totalmente) o topo do funil.

Um processo de seleção pouco criterioso, onde muitas startups são aceitas sem uma análise rigorosa de seu potencial ou alinhamento com os objetivos do programa, resulta em um ambiente crítico de convivência em rede, onde a troca de torna “pobre” ou, na pior das hipóteses, negativa, já que empreendedores não compartilham um ambiente de crescimento mútuo.

Além disso, a falta de competitividade no processo de entrada desvaloriza o programa, tornando-o menos atrativo para startups de alto potencial e para investidores.

Fuja do hype #02 | Aporte de recursos nulo ou insuficiente

No conceito original, todo programa de aceleração deveria oferecer suporte financeiro para o desenvolvimento da estratégia de criação, validação e entrada no mercado de novos produtos. Na prática, já vimos que bons programas, mesmo que não aportem diretamente recursos financeiros, podem ajudar startups na obtenção de outros recursos estratégicos, tais como dados, clientes, campo de validação ou conhecimento técnico especializado. Tudo isso que custa (caro) para startups, pode entrar como um atrativo investimento (nesse caso, econômico) para estas startups.

A falta deste financiamento adequado obriga os empreendedores a buscar recursos externos ou a comprometer sua estratégia de crescimento, muitas vezes desviando o foco para questões financeiras emergenciais em vez de priorizar o desenvolvimento de soluções disruptivas, perdendo o interesse no programa que não agrega em nada para o momento crítico da startup.

Fuja do hype #03 | Ausência de estratégias de relacionamento pós-programa

Um erro recorrente é a falta de continuidade no suporte oferecido às startups após o término do programa. As startups emergem da aceleração ainda em fase crítica de crescimento, e a falta de um plano estruturado de relacionamento pós-programa resulta em uma desconexão justamente quando essas empresas mais precisam de apoio.

A saída do programa pode ser um apoio estratégico na obtenção dos primeiros clientes, a disponibilidade de um campo de testes para realização de uma Prova de Conceito (PoC) ou mesmo um investimento (ou follow-on). O que não é aceitável é um relacionamento de 3 meses dentro de um programa de aceleração para trocar por uma logo no site e decretar o fim do relacionamento. Isso é tempo perdido para empresas (ou aceleradoras) e startups.

Fuja do hype #04 | Massificação do suporte

Principalmente em programas “porta aberta”, a estrutura de aceleração se baseia em um amontoado de capacitações online com salas virtuais com centenas de pessoas e praticamente nada de personalização.

Startups com soluções, tecnologias e estágios diferentes têm necessidades completamente divergentes, e a incapacidade de oferecer uma mentoria personalizada e adaptada a essas realidades compromete a eficácia da aceleração.

Fuja do hype #05 | Inexistência de uma rede de suporte

Um dos principais ativos de um programa de aceleração é a rede de suporte que ele proporciona, seja de investidores, mentores, parceiros estratégicos ou clientes potenciais. A falta de uma rede robusta de suporte limita o acesso das startups a oportunidades cruciais de mercado, financiamento e expertise, impedindo seu progresso.

É essencial que os gestores de programas de inovação e aceleração estejam atentos a essas práticas, priorizando a qualidade e o alinhamento estratégico em suas operações.

Então, existe espaço para mais programas de aceleração no país?

Existe espaço para programas de aceleração de startups desenhados e executados com seriedade, alinhados às reais necessidades das startups e do ecossistema de inovação e que seja, na prática, um reflexo do conceito original dos programas de aceleração.

As empresas e corporações que estão entrando no ecossistema de inovação aberta devem garantir que seus programas de aceleração sejam estruturados com foco em resultados concretos, evitando as armadilhas das práticas “fuja do hype” mencionadas.

O ecossistema brasileiro de inovação só se beneficiará de novos programas se eles forem realmente efetivos, com processos de seleção rigorosos, suporte financeiro adequado e uma rede sólida de mentores e investidores. Caso contrário, o risco é que o crescente número de aceleradoras continue a gerar mais frustrações do que resultados tangíveis, prejudicando a confiança dos empreendedores no modelo de aceleração.

Deixo algumas reflexões (presentes ainda no meu caderno de mentoria) sobre temas de interesse que gostaria de estudar e aprofundar. Quem tiver interesse em um destes temas, estou à disposição para um café e discutir um projeto de pesquisa em parceria:

  • Como podemos medir o efetivo impacto de programas de aceleração em startups brasileiras?
  • Qual é o limite saudável da quantidade de programas de aceleração de startups no país?
  • Como medir o impacto dos programas de aceleração em um ecossistema local/regional?