A maior parte dos líderes e gestores públicos de inovação brasileiros (incluindo aqueles diretamente envolvidos com inovação, ciência e tecnologia) não leu e/ou provavelmente não compreendeu na integralidade o conteúdo e os aprendizados do Prêmio Nobel de Economia 2025.
Essa afirmação é dura, mas é real. Vivemos em um país que consome pouca ciência e, em relação à estratégia de inovação, muitos profissionais em cadeira de liderança nesta área são extremamente empíricos. Talvez, a máxima é que “fazer inovação é fácil”. Também temos um déficit histórico na comparação entre produção científica e transformação de ciência em novos negócios no país.
O conteúdo do “Sveriges Riksbank Prize in Economic Sciences in Memory of Alfred Nobel 2025”, o popular Prêmio Nobel, é denso, mas de domínio público disponibilizado em duas versões: uma de conhecimento popular (com explicação simples para “quase” leigos) e outra de background científico mais completo. Tudo isso gratuito aqui.
Entender não é simples e transformar esse conhecimento em políticas públicas e práticas em ambientes corporativos e ecossistemas locais de inovação é raro. A maioria dos gestores, infelizmente, não vai sequer ler o documento integralmente. Se você ocupa uma cadeira de inovação, sinta-se na obrigação de investir seu tempo nesta leitura.
Esse artigo é de opinião pessoal justificada por três entendimentos de uma falha estrutural que percebo trabalhando há mais de 12 anos com inovação e desenvolvimento de startups no Brasil:
- Conteúdo técnico, teórico e científico que fundamenta o desenvolvimento econômico e estratégias de inovação raramente chegam à rotina de gabinetes locais públicos de ciência, tecnologia e inovação. A distância entre a produção científica e formulação de políticas públicas segue abissal, com muitos gestores ocupando cadeiras políticas/partidárias com quase nenhum conhecimento e experiência sobre inovação.
- Gestores de inovação em empresas privadas sem experiência passam a acreditar que já fazem inovação quando inauguram coworkings, ambientes de inovação, aprovam orçamentos de presenças em hubs de inovação ou contratam startups sem clareza do motivo ou resultado esperado com esse relacionamento. Já gestores públicos acreditam que fazem inovação quando aprovam leis vazias e desconectadas com a realidade local de seus empreendedores. Na verdade, reproduzem lógicas estagnadas sob nova embalagem.
- Governos, na maioria das vezes, não acumulam aprendizado e estratégias entre gestões. Enquanto países inovadores têm políticas cumulativas de longo prazo, o Brasil recomeça do zero a cada ciclo eleitoral.
O Prêmio Nobel de Economia 2025 explicado.
O Prêmio Nobel de Economia de 2025 foi concedido a três pesquisadores que mostraram, por caminhos distintos, respostas complementares para uma questão central da economia: o que sustenta o crescimento econômico de longo prazo?
O historiador econômico Joel Mokyr demonstrou, com base em evidências históricas robustas, como o entrelaçamento entre ciência e tecnologia gerou um ciclo virtuoso de acumulação de conhecimento útil (e crescimento econômico). Já os economistas Philippe Aghion e Peter Howitt construíram um modelo matemático que explica o crescimento como um processo contínuo de “destruição criativa”, onde empresas e tecnologias ultrapassadas são substituídas por novas, gerando ganhos agregados à sociedade.
Ou seja, o crescimento econômico sustentado acontece através da inovação.
Para os laureados, a inovação acontece a partir de dois tipos de conhecimento. O conhecimento proposicional busca explicar por que as coisas funcionam, ou seja, é o lado da ciência que pesquisa, refuta hipóteses, valida experimentos e chega a conclusões científicas sobre determinados fenômenos. Esse conhecimento acontece no “laboratório”. Já o conhecimento prescritivo mostra como, de fato, fazer as coisas funcionarem, ou seja, é o conhecimento que traduz, propõe, experimenta e concatena a ciência em um produto. É o conhecimento que acontece na prática “empacotado” em uma caixinha que tem valor para o mercado.
Durante séculos, ambos evoluíram de forma separada, resultando em períodos de crescimento pontual seguidos de estagnação. A ruptura veio, principalmente, com o iluminismo, quando o avanço científico começou a alimentar a prática técnica e vice-versa, criando uma retroalimentação que sustentou o progresso tecnológico da Revolução Industrial em diante.
O Prêmio Nobel de Economia de 2025 destacou que o crescimento sustentado só ocorre quando o conhecimento científico (proposicional) e o prático (prescritivo) se conectam em sociedades abertas à mudança.
Essa conexão muda a realidade das pessoas, que passam a possuir melhor acesso à saúde, educação e segurança pública, por exempl, e das naçõe, que passam a experimentar crescimento sustentado a partir do aumento da sua arrecadação.
A lógica é que o investimento sério e sólido em inovação pode significar crescimento econômico sustentado em longo prazo. Infelizmente, não é o que acontece sistematicamente no Brasil. Pouco mais de 1% do PIB é investido em ciência, tecnologia e inovação no país, proporcionalmente e absolutamente menor do que países desenvolvidos como EUA (~3,5% do PIB) e Alemanha (~3% do PIB).
Com base nisso, a seguir compartilho minha visão pessoal das implicações do Prêmio Nobel de Economia 2025 para o cenário de inovação no Brasil sob a ótica de três atores importantes: líderes de empresas privadas, gestores públicos e líderes de ecossistemas locais de inovação.
A lógica para líderes de inovação em empresas privadas
Em empresas privadas, muitos executivos chegam à cadeira de inovação por histórico sólido em outras áreas, como gestão de pessoas, TI ou marketing, mas sem domínio de métodos de inovação e repertório prático. O resultado é previsível: a pressão por trimestre empurra a organização para o prescritivo de curto prazo (pilotos, POCs, squads, hackathons, visitas a hubs).
A camada de ciência, mecanismos, causalidade, validação e acumulabilidade fica frágil ou terceirizado para universidades e centros externos, como se o “core” da empresa não precisasse desenvolver capacidade para entender, selecionar e traduzir novos conhecimentos em estratégia. E aí nasce um paradoxo: exige-se “resultado” de inovação sem investir na infraestrutura cognitiva e institucional que gera resultado a médio e longo prazo.
Outro problema estrutural é a estrutura que premia o teatro e pune a aprendizagem. Inovação passa a existir como uma ilha, com orçamento frágil, KPIs ruins (quantidade de POCs, eventos, startups contratadas, horas de ideação) e sem conexão com decisões estratégicas duras.
O cenário do caos é: departamento de compras mata experimentos por estrutura mal desenhada, departamento jurídico vira “não” por padrão e a área de inovação vira uma fábrica de narrativas para comitê, o famoso “pipeline de slides”. A organização diz querer explorar o novo, mas sem mexer nos incentivos do core, sem aceitar canibalização, sem tolerar falhas e sem redesenhar carreiras para reter talentos técnicos.
A rotatividade de lideranças de inovação não é um “azar do RH”, mas sintoma de um sistema que não acumula aprendizado, não documenta decisões, não consolida plataformas de inovação e não transforma erros em ativos. No limite, a empresa perde timing, fica refém de fornecedores e passa a “comprar inovação” como se isso substituísse estratégia.
E é aqui que a lógica destacada no prêmio Nobel de 2025 vira uma lente incômoda para as corporações: o crescimento sustentado acontece quando o conhecimento explicativo alimenta o aplicado e quando instituições são abertas à mudança. Só que a maioria das empresas brasileiras quer “inovar” sem permitir destruição criativa. Muitas não querem mexer no legado, canibalizar receita, enfrentar política interna, rever incentivos, investir seriamente em P&D com horizonte de anos. A inovação vira, então, episódica, oportunista e frágil.
A lógica para gestores públicos de inovação
No setor público, principalmente no poder público local, o problema é de déficit metodológico. Falta capacidade de traduzir problema público em agenda de pesquisa e inovação, desenhar instrumentos coerentes (subvenção, encomenda tecnológica, compras públicas para inovação ou sandbox) e gerir portfólio de projetos com rigor técnico.
Cargos de inovação, geralmente ligados a desenvolvimento econômico, viram extensão de coalizão político-partidária e acabam ocupados por gente que sabe tocar agenda de articulação, mas não domina política de CT&I, economia da inovação, instrumentos de fomento e avaliação de impacto.
Como ciência e desenvolvimento tecnológico operam em horizontes longos, isso perde para o incentivo mais forte do ciclo eleitoral. Inovação local vira sequência de ações desconectadas como editais de evento, inauguração de estruturas e laboratórios como fotos bonitas e pouca efetividade, leis vazias e sem articulação com a comunidade científica. E em muitos municípios sequer existe plano estratégico de CT&I com prioridades, governança, orçamento plurianual e metas verificáveis.
As consequências são previsíveis. A gestão passa a ser orientada pela visibilidade, “cortar faixa” e fazer eventos. Nascem parques tecnológicos, hubs, prêmios, semanas de inovação, hackathons e editais genéricos que financiam atividade, não transformação. Muitos gestores não sabem que é possível usufruir de melhores resultados com muito menos investimento.
E, como regra, as políticas não são cumulativas morrendo a cada troca de gestão, com o governo zerando a memória, descontinuando programas, abandonando dados e recomeçando do “marco zero”. Isso destrói confiança e torna qualquer estratégia de longo prazo mais cara e mais improvável.
É aqui que a lente do Nobel fica incômoda novamente. Crescimento sustentado exige acoplamento entre conhecimento proposicional (ciência que explica, valida, acumula) e conhecimento prescritivo (engenharia, implementação, difusão), dentro de instituições abertas à mudança. No setor público brasileiro, o proposicional fica distante do gabinete e o prescritivo vira raro. E a “destruição criativa” necessária para crescer é politicamente indigesta.
A lógica para líderes de ecossistemas de inovação
Nos ecossistemas locais de inovação, um dos principais problemas é de representatividade. Muitas lideranças deste grupo estão em instituições de suporte (associações, sistema “S”, parques, agências, universidades, hubs), mas não vive a rotina de quem empreende. Isso cria um descolamento clássico, onde o ecossistema passa a otimizar agenda e articulação, não formação de empresas competitivas e habilidades empreendedoras.
A consequência é uma linguagem cheia de frameworks e muito institucional (às vezes até política), mas de pouca aderência à realidade empreendedora. Muitos empreendedores acabam vendo o ecossistema como “perda de tempo” e abandonam aquela agenda muito mais bonita na foto do que na prática.
Muitos ecossistemas pulam direto para o prescritivo (startup weekends, pitch day, demo day, programas de aceleração) sem construir a camada uma proposicional relevante ou conectada com os eventos (laboratórios relevantes, grupos de pesquisa fortes, dados, infraestrutura de testes e validação, conexão com desafios tecnológicos reais e participação das empresas). E aí nasce o ecossistema “de superfície”, sendo bonito no calendário e raso na capacidade.
As consequências aparecem rápido. O ecossistema vira palco de eventos, com muita visibilidade e pouca densidade técnica, discutindo tendência, vocação local, mas não medindo a evolução da maturidade ao longo do tempo. Celebra-se “cases”, mas não se consolida aprendizado para ser replicado. Na prática, surge uma distorção de incentivos, com métricas de sucesso baseadas em contagem de eventos, número de parceiros, posts e fotos. Pouco se acompanha o que importa: novas patentes relevantes, contratos com empresas âncora, faturamento recorrente, exportação, produtividade regional, empregos qualificados, sobrevivência e escala. E, sem dados, o ecossistema não aprende.
Crescimento sustentado depende do acoplamento entre conhecimento proposicional e prescritivo num ciclo de retroalimentação. Ecossistema maduro não é só “comunidade”, mas uma máquina que transforma ciência em inovação comercial e, de volta, transforma demandas do mercado em novas perguntas científicas.
Em resumo…
O que o Prêmio Nobel de 2025 coloca de forma elegante, na prática é brutal: não existe crescimento sustentado sem um mecanismo eficaz e funcional que conecte ciência (proposicional) à execução (prescritiva).
No Brasil, empresas, governos e o próprio ecossistema de inovação tenta “colar” o prescritivo por cima da realidade, como se hackathon, laboratório inaugurado e programa de aceleração substituíssem método, investimento e continuidade. São importantes, mas não substituem. No máximo, produzem visibilidade de curto prazo e, no pior caso, criam cinismo: as pessoas passam a associar inovação a teatro.
A implicação prática é simples e desconfortável. Precisamos de mais capacidade de selecionar teses tecnológicas com base em evidência além de interesses políticos, financiar maturação, medir resultado real, encerrar o que não funciona sem stress de justificar o erro e sustentar estratégia além de ciclos políticos e modismos corporativos. Isso exige governança, orçamento, gente qualificada e, principalmente, coragem institucional para permitir “destruição criativa”, inclusive daquilo que hoje é conveniente, popular e fica bonito na foto.
