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  • Quer trabalhar em INOVAÇÃO? O que eu aprendi em 10 anos está aqui.

    Quer trabalhar em INOVAÇÃO? O que eu aprendi em 10 anos está aqui.

    O ano era 2011 e eu começava a minha primeira startup em Maringá-PR sem nem mesmo saber o que significava a sigla CNPJ – e muito menos o que era uma startup. Não tinha a menor noção do que aconteceria nos próximos 10 anos até hoje. 

    O Guilherme profissional de hoje com certeza agradece aquele Guilherme cheio de frio na barriga de 2011. Em resumo, faria tudo – mais ou menos – igual. Os acertos e os erros.

    De lá para cá, fundei 2 startups, fui advisor de outras 4, gestor de programas de inovação que aceleraram mais de cem startups e agora, gerente de inovação do maior complexo de tratamento oncológico da América Latina em Barretos-SP. Há 10 anos não se falava em “carreira em inovação” como conhecemos hoje – e ainda conhecemos muito pouco. Então, nunca escolhi “trabalhar com inovação”. Aconteceu! E aqui você vai entender o motivo. 

    Mas esse texto não é sobre mim ou minha carreira – que nem merece um texto. Este texto é sobre alguns aprendizados trabalhando com startups e inovação nos últimos 10 anos. 

    Para facilitar a leitura, dividi este texto em três partes.

    #01 – O que você precisa saber antes de “entrar de cabeça”?

    #02 – Fazendo parte do “teatro” inovador

    #03 – Como ser levado a sério no meio dos post-its? 

    Este texto não é definitivo, está sujeito a complementação e talvez daqui a 10 anos eu possa criticar muito do que eu escrevi aqui – ou agradecer por ter registrado esses aprendizados. Faz parte do crescimento. Agora, pegue o seu café e vamos nessa!

    #01 – O que você precisa saber antes de “entrar de cabeça”?

    Trabalhar com inovação é lidar diariamente com iniciativas empreendedoras em diferentes contextos. E empreender é um negócio – e carreira – de alto risco, em qualquer dimensão. É muito provável que, mesmo em empresas estabelecidas e pela brevidade do ecossistema de inovação brasileiro, você ainda trabalhe em iniciativas e departamentos de inovação que ainda “estão se provando”. 

    Consequentemente, trabalhar em inovação – dentro de uma grande empresa, em uma startup ou criando o seu próprio empreendimento inovador – também é basear a sua carreira em fatores que envolvem – em maior ou menor dimensão – risco. Na grande maioria das carreiras em inovação, você vai estar exposto a condições de extrema incerteza.

    É a vida de startup extrapolada para sua carreira. Mas este não é um texto desanimador – prometo! 

    É claro que existe muita iniciativa relevante no país e gente séria que está gerando resultado e colocando grana alta no caixa de muitas companhias – e startups – pelo país. E fazendo isso há muitos anos de forma séria e consistente. Sebrae, Abstartups e dezenas de aceleradoras e corporates pelo Brasil estão aqui para provar isso! Mas ainda tem muita empresa – e profissionais – fazendo e pensando inovação no efeito manada. 

    É cool, sexy e pega bem colocar no relatório anual de investidores as cifras investidas em startups, eventos e hackathons. Isso faz com que ainda exista muita “espuma” por aí, ainda que muita gente – e empresas – estejam fazendo muita coisa séria e consistente, repito.

    Como mercado novo e ainda em consolidação, também existe muita oportunidade e lacunas para novos atores – e pessoas – se posicionarem. Isso não significa, de forma alguma, seguir receitas de sucesso ou repetir carreiras de quem já se estabeleceu na área. Ver cases é divertido e inspirador, mas como uma área ainda em desenvolvimento, você deve escrever a sua própria história na área de inovação. 

    Se você está lendo este texto, provavelmente já trabalha ou quer trabalhar na área. Minha pergunta para você é: você realmente QUER trabalhar em inovação ou só acha cool a palavra da moda ser “startup” vendo salas cheias de puffs coloridos?

    Olha onde você pode estar se metendo…

    Crescemos muito – muito mesmo – em ciência, tecnologia e inovação no Brasil nos últimos 20 anos. Desaceleramos nos últimos cinco – não é opinião, são dados – e ainda temos muito a fazer nos próximos. A prova disso é o Índice Global de Inovação, que coloca o Brasil na 54ª posição entre 132 países em 2022. A nossa posição já foi melhor – 47ª posição em 2011 – e pior – 57ª posição em 2021. No geral, ainda somos pouco inovadores apesar de muito criativos. Sim, criatividade e inovação são coisas totalmente diferentes – já falo disso daqui a pouco.  

    Você pode ver o ranking completo neste link: Global Innovation Index 2022: What is the future of innovation-driven growth?

    De acordo com o relatório da UNESCO em 2021, o Brasil investiu cerca de 1,26% do PIB em iniciativas e fomento para inovação, ainda longe da marca percentual – mais distante ainda em valor financeiro absoluto – de EUA – com 2,19% do PIB – e Alemanha – com 3,09% do PIB

    Para os bons empreendedores de carreira, isso é um prato cheio de oportunidades! As iniciativas estão apenas no começo – pelo menos é o que eu entendo, mera opinião. Portanto, trabalhar em inovação é também um mar de oportunidades!

    O desenvolvimento do ecossistema de inovação brasileiro nos últimos anos foi animador. Muito mais estruturado, coeso e maduro, é fácil mensurar nosso crescimento em número – de startups, deals, investimento, M&A’s, corporates com iniciativas de inovação aberta e muito mais. 

    Apesar deste crescimento no Brasil, empreender continuará sempre sendo um negócio de alto risco no país e em qualquer outro lugar do mundo. Consequentemente, atuar com inovação é manter contato próximo com empreendedores – e intraempreendedores – o que faz com que sua carreira seja exposta a cenários de grande incerteza.

    Gordon Moore estava certo…

    Em 1965, o cofundador da Intel Corporation cravou uma visão que seria considerada a maior previsão tecnológica do século. Gordon Moore afirmou que a capacidade de processamento de componentes eletrônicos – entenda-se poder computacional – dobraria a cada 18 meses mantendo o mesmo – ou menor – custo por componente. A Lei de Moore, como ficou conhecida, explica o crescimento exponencial da tecnologia e o barateamento que proporciona uso e aplicação da tecnologia em massa.

    O link do artigo original – para nerds – é este: Cramming more components onto integrated circuits (Gordon E. Moore, April 19, 1965)

    É exatamente por isso que você está lendo este artigo de um computador, notebook ou celular que não ocupa mais o espaço de uma camionete à sua frente. Os dispositivos são muito mais potentes, menores e baratos do que 70 anos atrás.

    O crescimento e popularização da tecnologia proporcionou ganhos em escala em contextos diversos nos últimos anos. E, por muito tempo no mundo dos negócios, utilizar a tecnologia como estratégia de maximização de vantagem competitiva no mercado foi um importante diferencial para empresas novas e consolidadas. 

    Foi – no passado. Esse crescimento exponencial também proporcionou comoditização. Explico: ter um sistema de gestão empresarial no início da década de 90 era uma vantagem competitiva clara em termos de eficiência operacional para diversos tipos de negócio. Hoje, trata-se de critério de sobrevivência. Toda empresa que deseja permanecer no mercado precisa ter uma estratégia mínima de digitalização. Como isso está ligado à sobrevivência, todo mundo que permanece vivo no mercado faz. Se todo mundo faz e tem, vira commodity. 

    O artigo – IT Doesn’t Matter – da Harvard Business Review de 2003 – sim, 2003 – já abordava o efeito da comoditização da tecnologia da informação. 

    Se apenas comprar e utilizar tecnologia passou a ser requisito básico de sobrevivência das empresas, entende-se que é preciso ir além dos departamentos de TI, que continuam com papel fundamental no ecossistema de negócios. E nesse caso, o “ir além” significa não apenas consumir, mas criar seus próprios recursos tecnológicos ou aplicar a tecnologia em diferencial claro em termos de modelo de negócio. 

    Explicando melhor: comprar um ERP não é diferencial competitivo, é critério de sobrevivência. Mas utilizar a tecnologia para criar um novo canal de venda, otimizar a sua cadeia de distribuição usando inteligência artificial ou transformar um negócio em plataforma digital, isso pode – sem certezas absolutas – se transformar em um diferencial competitivo. 

    E aí surgem as carreiras na área de inovação…

    As áreas de tecnologia para aquisição, implantação e consumo de sistemas, aplicativos e derivados continuam sendo importantes pilares de sustentabilidade para os negócios. Mas o “ir além” do consumo é criar ou se antecipar no uso da tecnologia para transformação do core do negócio. É aí que surgem as atuações dos profissionais de transformação digital, inovação e afins.

    O mais importante para as empresas – e startups – que entendem esse conceito é criar uma estratégia de inovação consistente atrelada à estratégia corporativa do negócio, atraindo, reposicionando e retendo pessoas – talentos – capazes de conduzir mudanças profundas na organização.

    É aqui que você entra…

    Inovar não é fazer ou participar de meetups, hackathons, oficinas de Design Thinking, programas de aceleração de startups ou corridas de ideias. Esses podem ser caminhos possíveis, mas estão longe de representar o resultado final. É muito mais profundo e deve – necessariamente – estar ligada à estratégia corporativa de longo prazo da empresa. Mas não é sempre assim que acontece.

    As organizações perceberam que o relacionamento com startups é um caminho rápido para ajudá-las nesta transformação, já que muitas vezes elas não possuem o conhecimento, a velocidade e a percepção de realidade sobre novos modelos de negócio. Agora, elas passam a não apenas consumir, mas a criar ou readaptar a tecnologia para viabilizar novos modelos de negócio – novos produtos, serviços ou mesmo empresas spin-offs.

    Este é o tipo de empresa que você deve permanecer por perto para trabalhar na área, sejam empresas estabelecidas ou startups: aquelas que entendem que inovação está ligada a uma questão estratégica de reposicionamento do core da empresa, e não apenas criação de eventos sem fundamento.

    O problema é que quando isso não está ligado à estratégia de longo prazo da instituição, inovar vira um “teatro”, que vou apresentar melhor na parte 2 deste artigo – e como você pode sobreviver a ele. 

    Carreiras possíveis e habilidades necessárias…

    Conversando com amigos da área, a história quase sempre se repete: a grande maioria das pessoas que trabalham na área de inovação, nunca escolheram trabalhar em inovação. Na minha – mera – opinião, isso acontece porque profissionais que trabalham na área costumam materializar seu senso de curiosidade, impaciência e espírito empreendedor na própria carreira, e acabam preferindo lidar com caminhos pouco conhecidos. Portanto, naturalmente se aproximam de iniciativas empreendedoras, muito ligadas à área de inovação. 

    Você fica confortável neste contexto?

    Bingo, foi assim que entrei na área há 10 anos. Comecei minha própria empresa e nunca mais me distanciei do ambiente empreendedor. Se você se identifica com a descrição acima, é um forte candidato a trabalhar em inovação. 

    Não que não seja possível absorver as competências e desenvolver as habilidades para trabalhar em inovação, mas se manter vivo – e motivado – no meio de tanta incerteza só é possível se estiver intrinsecamente ligado ao seu propósito de vida. Isso é Motivação 3.0.

    Vale dar uma olhada aqui: Dan Pink: The puzzle of motivation | TED Talk

    Então, por que você deveria trabalhar em inovação?

    Resposta curta: porque você fica confortável em criar coisas em cenários incertos.

    Demorei para entender isso, mas hoje percebo um certo padrão nos demais colegas que trabalham na área de inovação. Trata-se de uma vocação, e não necessariamente uma escolha de carreira. 

    Isso serve para os três caminhos possíveis mais conhecidos – não excluindo outras centenas de possibilidades – para quem quer entrar na área de inovação. 

    1 – Você se torna um empreendedor de uma startup – ou de um negócio de base inovadora não necessariamente escalável.

    2- Você trabalha em uma startup – ou scale-up – em áreas e operações pouco consolidadas no mercado tradicional.

    3- Você trabalha na área de inovação em uma grande empresa – ou uma instituição de suporte ao empreendedorismo inovador. 

    A grande maioria das pessoas que eu conheço que trabalham na área de inovação se distribuem nas três carreiras possíveis acima. E a grande maioria delas já estiveram em pelo menos duas das três carreiras acima – ou algumas delas nas três. E este é o melhor caminho para aprender como trabalhar em inovação: criando, empreendendo e colocando a própria pele em jogo. 

    Em resumo, existe um único motivo para você querer trabalhar em inovação: VOCÊ QUER TRABALHAR EM INOVAÇÃO! Simples assim. Você fica confortável em empreender e criar cenários novos! Trabalhar nesta área NÃO é fazer eventos e hackathons, e sim acordar todos os dias para provar e reinventar produtos, serviços e modelos de negócio de empresas, nem que seja criando a sua própria startup. 

    #02 – Fazendo parte do “teatro” empreendedor

    Salas coloridas com frases motivacionais de empreendedores famosos, puffs descolados, paredes com post-its, analistas “no dress code” e vários eventos com nomes em inglês. Tudo muito sexy para encher os olhos de qualquer visitante. 

    Isso tudo não significa que uma organização – ou startup – está inovando. Muitas vezes apenas significa uma cópia barata de um escritório estilo Vale do Silício. Todas as organizações querem e precisam inovar para sobreviver, mas poucas querem “pagar o preço” para realmente inovar. 

    Garantir sobrevivência e sustentabilidade de um negócio exige capacidade de colocar essa transformação em prática – de canais, produtos e modelos de negócio, principalmente. O problema é que muitas empresas respondem a essa necessidade com mais processos – e burocracia – ou copiando fórmulas prontas em formato de escritórios coloridos. 

    Eis que surge o “teatro” da inovação…

    O termo não é meu, e aparece centenas de vezes em artigos e publicações relevantes na área da inovação, incluindo este Why Companies Do “Innovation Theater” Instead of Actual Innovation – também da Harvard Business Review do meu guru Steve Blank. 

    Segundo sua abordagem, as organizações quando crescem se especializam em criar três tipos de teatro:

    1. O teatro da inovação: adotar atividades prontas e conhecidas que moldam a cultura, mas não materializam produtos reais – hackathons e workshops de inovação.

    2. O teatro organizacional: contratar consultorias que reorganizam as estruturas da empresa e criam uma “maquiagem” de agilidade que na prática não existe.

    3. O teatro do processo: reformular os procedimentos atuais com termos ágeis e modernos sem mudar a profundidade da cultura para execução realmente ágil.

    Isso pode acontecer com empresas estabelecidas, startups ou instituições públicas. Todas querem o benefício da inovação – eventos com cerveja regado a post-its na parede – mas poucas querem correr o risco de realmente transformar estas ações em novos produtos e aplicar em seu modelo de negócio. 

    Não existe nada de errado com os eventos e programas, desde que eles sejam o MEIO, e nunca o RESULTADO final do seu trabalho. 

    Entre os diversos tipos de atores neste ecossistema, as grandes empresas são as mais propensas a criar “teatros” de inovação: possuem recurso financeiro em abundância, tempo disponível nas diversas camadas organizacionais e estabilidade de mercado para responder com tempo a estas mudanças. Muitas vezes, a inovação não é “assunto urgente”, e acaba virando uma atividade totalmente desconexa da realidade e estratégia do negócio. A transformação tão necessária vira recreação corporativa. E a recreação vira teatro!

    Mais uma vez: existem exceções incríveis no país. Empresas – e startups – realmente jogando sério, criando valor e colocando dinheiro no bolso de forma consistente. São empresas – e profissionais – que entenderam que o jogo é estratégico e deve ser pautado em resultado, e não em número de eventos durante o ano.  

    Muitas empresas já estão indo além do “teatro”, e o gatilho para perceber isso é quando a inovação começa a ser entendida como um componente estratégico. A minha dica é: ao entrar na área de inovação, aprenda a diferenciar as iniciativas relevantes dos infinitos “teatros” da inovação em formato de eventos coloridos. Faça a pergunta: quantos projetos reais e aplicáveis existem além dos eventos e puffs coloridos? Quais resultados geraram? 

    O problema é que o mapa não está pronto…

    Ou seria solução? Não existe um caminho conhecido do ponto A ao ponto B para uma empresa – ou startup – inovar. Sendo assim, também não existe carreira linear em inovação. Como disse anteriormente, você vai perceber a sua vocação para trabalhar em inovação entendendo o quanto se sente bem em estar em cenários incertos que exigem criatividade, impaciência e curiosidade. E empreendedorismo!

    A verdade é que existe uma diferença fundamental em relação a qualquer outra carreira: você será sempre o elo mais próximo – e mais parecido – com os empreendedores. Algumas vezes, você deverá ser o próprio empreendedor. 

    E empreender exige características específicas e generalistas diferente de muitas outras carreiras: você deve cultivar uma mentalidade aberta e preparada para o aprendizado diário, pronto para falhar, aprender e fazer novamente mais rápido. 

    E nada mais simples para explicar essas novas habilidades do que o bom – e já velho – conceito do T-Shaped Professional. O profissional T-shaped combina a profundidade de conhecimento em uma área específica com habilidades generalistas e conhecimento amplo em outras áreas. 

    O formato do “T” é usado para representar uma combinação de habilidades especializadas – na vertical – e componentes generalistas – na horizontal. Para a área de inovação, habilidades em engenharia, produto, administração, ciência e tecnologia são indispensáveis na composição do perfil profissional, porém deve sobressair um conjunto pequeno de especialidade na sua vertical de atuação. 

    Por exemplo, apesar do meu background acadêmico em engenharia – graduação e mestrado – naveguei durante alguns anos em desenvolvimento de produtos de software – até arriscando “codar” algumas páginas web – gestão de empresas – principalmente finanças – marketing – incluindo algumas certificações do Google – e mais recentemente mergulhando no universo da saúde. Em nenhuma delas me considero um especialista, mas posso conversar tranquilamente com profissionais da área mais experientes do que eu. 

    O meu “T” se forma quando o assunto é “desenvolvimento de startups”. Empreendi duas startups do zero, fui advisor de outras 4 e acompanhei mais de 100 em programas de aceleração. Portanto, me sinto extremamente confortável em navegar nessa área, com o conhecimento teórico que adquiri com mais de 10 anos de prática vivendo o “skin in the game” do empreendedorismo. 

    Em um ambiente em que grande parte das iniciativas de inovação e programas para startups são conduzidos por pessoas que nunca tiveram um CNPJ, considero o meu “T” o diferencial no ambiente em que estou inserido. Detalhe: ele não serve para absolutamente nada em centenas de outros cenários, mas me dá uma grande vantagem competitiva no meu ambiente. 

    Essa história toda do T-shaped vale apenas para fundamente minha dica nesta sessão: sua carreira – muito provavelmente – será não-linear, mas a formação da sua matriz de habilidades e competências pode ser planejada e executada de forma pensada. A reflexão é: qual é o seu “T” para trabalhar em inovação? 

    Vale olhar também o artigo: Introducing T-Shaped Managers: Knowledge Management’s Next Generation

    Por falar em carreira não-linear…

    Uma pesquisa conduzida pela Innovation Leader mostrou que o tempo médio de permanência de executivos na área de inovação é de 4,4 anos. A permanência é um pouco mais longa para os VPs – 5,4 anos – e um pouco mais curta para os gerentes – 3,3 anos. A pesquisa completa é How Long Do Corporate Innovation Jobs Last, and What Happens Next? – InnoLead

    Fazer carreira na área de inovação não é para quem valoriza cenários estáveis e conhecidos, sendo válido para empreendedores de startups, colaboradores de grandes empresas e instituições de apoio ao empreendedorismo. A lógica é sempre a mesma: você estará exposto a cenários de extrema incerteza. 

    Ainda está curioso se fazer carreira em inovação é para você? Faça como uma startup: crie algumas hipóteses de carreira, vá a campo validá-las, crie um protótipo e tenha certeza de que funciona antes de arriscar tudo. Funciona para empreender e funciona para sua carreira. 

    Por fim, aprender fazendo – seja abrindo uma empresa ou procurando uma oportunidade na área – é a melhor forma de acelerar ao máximo sua curva de aprendizado. Eu sempre encorajo as pessoas a tentarem. Se funcionar, bingo: melhore e cresça. Se não funcionar, aprenda: reveja os erros, refaça o caminho e tente novamente. A carreira em inovação – como o lean startup – é um eterno ciclo para construir, medir e aprender. 

    #03 – Como ser levado a sério no meio dos post-its? 

    Para finalizar este artigo, essa última parte nasce com 5 dicas rápidas para ser levado a sério nessa área. Sim, cada vez mais fazer carreira em inovação é sexy, mas centenas de vezes já fui chamado de “o carinha do post-it”. 

    #01 – Seja um empreendedor pelo menos uma vez na vida

    Desculpem a analogia, mas a área de inovação ainda está cheia de “sexólogos virgens”. Algumas das pessoas que mentoram, conduzem programas e iniciativas empreendedoras e dão dicas valiosas para pessoas que estão arriscando a própria pele, nunca sequer pagaram um salário na vida. Não sabem a sensação no estômago de dormir pensando como salvar o próximo trimestre de um negócio.

    Se você QUER trabalhar na área de inovação, viva uma experiência de criação. Não precisa arriscar seu patrimônio, qualidade de vida ou o seu emprego atual. Porém, invista tempo e dinheiro para criação e validação de uma empresa do zero, tenha um CNPJ, contas para pagar e obrigações a cumprir. Entenda a jornada “calçando o sapato” dos empreendedores. Esse será o melhor MBA de Empreendedorismo da sua vida!

    A grande maioria dos conselhos idiotas que ouvi de pessoas sentadas em cadeiras confortáveis com o salário garantido no final do mês vieram das pessoas que nunca viveram essa experiência. Não seja o sexólogo virgem. Não seja o “carinha do post-it” que nunca tentou criar nada na vida e vende dicas baratas dos livros de empreendedorismo que leu.

    #02 – Tenha certeza de que você QUER trabalhar em inovação

    Lembre-se de que existe um único motivo para você trabalhar em inovação: VOCÊ QUER TRABALHAR NA ÁREA DE INOVAÇÃO! Se você pensa em entrar na área porque viu uma lista de salários ou a profissão está no topo da lista de tendências para os próximos anos, esqueça! Essa é uma carreira para quem gosta do “skin in the game”.

    Você vai saber que faz sentido para você uma carreira na área de inovação caso sinta-se confortável para trabalhar em ambientes “em construção contínua” e que exigem que você “escreva a sua próxima página”. Geralmente, ambientes como este não são caminhos conhecidos ou já trilhados. 

    #03 – Encontre um mentor o mais rápido possível 

    De preferência um mentor que já errou. Aprendeu, melhorou, cresceu e pode compartilhar sobre seus aprendizados. Sem romantismo, só vivência prática! Pode ser aquele que está no auge, mas desde que compartilhe o lado “fail” da carreira em inovação. Ter um mentor vai multiplicar a velocidade de aceleração da sua carreira na área se comparado com os livros de receitas empreendedoras prontas. 

    A jornada empreendedora – e de qualquer carreira em inovação – nunca é linear, mas contar o lado romântico das histórias de sucesso vende muito mais livros. As prateleiras das livrarias estão cheias de “vá em frente, você consegue assim como eu consegui”. Estes são os  “junk food” do empreendedorismo moderno, fácil de ler, sem atrito algum. Mas ele não vai te levar a um próximo nível.

    O seu mentor – ou mentorES – não será a pessoa que irá pegar na sua mão e guiá-lo pelo caminho até sua contratação – ou sucesso da sua empresa. O papel do mentor é compartilhar as experiências e aprendizados práticos nos momentos de inflexão da sua jornada. A responsabilidade pela jornada é TOTALMENTE sua. 

    #04 – Entenda que inovação é sobre RESULTADO 

    Você precisa focar em CRIAR a inovação. E isso vai além das oficinas e hackathons. Vou dar dois dos conceitos de inovação que costumo fixar em todos os projetos e iniciativas que eu conduzo. Para Peter Drucker “inovação é o ato de atribuir novas capacidades aos recursos (pessoas e processos) existentes na empresa para gerar riqueza“. Já para o Manual de Oslo, inovação é a “implementação de um produto (bem ou serviço) novo ou significativamente melhorado, ou um processo, ou um novo método de marketing, ou um novo método organizacional nas práticas de negócios, na organização do local de trabalho ou nas relações externas

    Perceba que inovação é totalmente diferente de criatividade ou de qualquer outra atividade-meio para gerar resultados reais. Os dois conceitos referem-se à “inovação” como a capacidade de implementar e gerar riqueza a partir de novas ideias e conceitos. Eventos, hackathons, salas coloridas e post-its podem ser o caminho para se construir novas soluções, mas são apenas o meio. O resultado finalístico da inovação será – sempre – a capacidade de gerar vantagem competitiva e RESULTADO a partir de processos criativos. 

    Trabalhando na área de inovação, você será o profissional do RESULTADO. É simples de entender, mas muito difícil de concorrer com “teatros” por toda a parte. 

    Por fim, o conceito mais básico…

    Coloque sua própria pele em jogo! Já falei anteriormente que as carreiras na área de inovação são as mais próximas da jornada empreendedora. Você irá conviver diariamente com jornadas de criação de negócios e transformação de empresas estabelecidas em cenários de altíssimo risco e incerteza. E assim será a sua jornada também.

    Finalizo este texto com uma lista curta e em constante construção, biblioteca básica para entender este mundo. Se quiser seguir em frente, espero que não pare nos livros. A carreira na área de inovação é uma eterna jornada Lean Startup: construir, medir e aprender! 

    #01 – Antifrágil: coisas que se beneficiam com o caos

    Nassim Nicholas Taleb

    #02 – Teoria U: como liderar pela percepção e realização do futuro emergente

    Otto Scharmer

    #03 – The Hard Thing about Hard Things: Building a Business When There Are No Easy Answers

    Ben Horowitz

    #04 – O Dilema da Inovação

    Clayton M. Christensen

    #05 – The Four Steps to the Epiphany

    Steve Blankv

  • Como criar (e sustentar) uma comunidade de startups?

    Como criar (e sustentar) uma comunidade de startups?

    O ano era 2018 e eu voltava de São Paulo com um grupo de empreendedores de uma cidade pequena do interior de São Paulo de um evento de startups na maior capital do país com uma decisão simples no grupo: “precisamos criar uma comunidade de startups na nossa cidade”.

    De lá para cá, e com a comunidade formada, foram mais de 100 startups participantes de programas ou iniciativas de inovação na região, mais de 2.500 pessoas impactadas em pelo menos 30 eventos e mais de uma dezena de novos CNPJs criados pelas (ou com o apoio das) pessoas dessa comunidade.

    Olhando de trás para frente, os acontecimentos parecem óbvios, mas na época não fazíamos ideia do impacto da decisão que tínhamos acabado de tomar. A cidade é Barretos (SP) e a comunidade é o Bruto Valley, que foi considerada em 2022 uma das 10 comunidades revelação do país pelo Startup Awards, a maior premiação do ecossistema brasileiro de startups.

    Esse texto não tem o objetivo de contar a história do Bruto Valley (ou outras comunidades de startups, mesmo que a história seja extremamente relevante e sim, faremos isso em breve), mas sim as motivações e os aprendizados de como conseguimos criar e manter uma comunidade de startups ativa por mais de 5 anos em uma cidade de pouco mais de 120 mil habitantes.

    Trabalhando há quase 12 anos na área de inovação, vi repetidas vezes empresas, instituições de ensino ou poder público começarem iniciativas de comunidades locais e falhar ao longo do tempo. Vou explorar abaixo a minha resposta (pessoal) para a pergunta que recebi diversas vezes de pessoas querendo fazer benchmarking com a nossa comunidade: como criar (e sustentar) uma comunidade de startups?

    Antes, uma breve definição.

    Uma comunidade de startups é um sistema colaborativo composto por empreendedores, investidores, mentores, aceleradoras/incubadoras, universidades, instituições governamentais e outras partes interessadas que compartilham o objetivo de fomentar o surgimento e crescimento de startups. Essas comunidades fornecem um ambiente propício à troca de experiências, recursos e oportunidades, facilitando a criação, desenvolvimento e escalabilidade das startups de um território.

    Mas, preste atenção neste detalhe importante: é uma comunidade de STARTUPS. Sendo assim, uma comunidade NÃO deve nascer (ou crescer) apenas com instituições de apoio, empresas e organizações, mas sim com (e pelas) startups locais.

    Esse detalhe faz toda a diferença, pois são os empreendedores de startups que trazem as demandas e os desafios que direcionam os esforços da comunidade local.

    Fonte: Startup Communities: Building an Entrepreneurial Ecosystem in Your City, Brad Feld

    No livro Startup Communities: Building an Entrepreneurial Ecosystem in Your City, Brad Feld define como um grupo de pessoas que estão engajadas em criar e apoiar empresas inovadoras em uma determinada localidade, baseada em quatro princípios: liderada por empreendedores, de mentalidade de longo prazo, inclusiva e focada em atividades contínuas.

    Então, como criar (e sustentar) uma comunidade de startups?

    Baseado em centenas de horas de estudo e vivência com comunidades de startups nos últimos 12 anos, tentei resumir a resposta em uma frase, que explicarei melhor abaixo: (1) Reunindo um grupo diverso de empreendedores de startups (2) com um mesmo propósito de impacto de longo prazo, (3) realizando iniciativas contínuas de fomento e geração de resultados para as startups da comunidade.

    Essa é uma definição pessoal e não envolve na totalidade definições exatas e científicas de comunidade de startups. Se você trabalha na área de inovação de uma empresa e/ou se relaciona com startups, recomendo fortemente a leitura do livro do Brad Feld para entender o conceito (e estratégias para construir) comunidade de startups.

    Vamos à minha definição, por partes.

    1. Reunindo um grupo diverso de empreendedores de startups…

    A diversidade é um dos pilares centrais de uma comunidade de startups saudável. A inclusão de pessoas com diferentes origens, experiências, habilidades e perspectivas é essencial para a inovação e o crescimento da comunidade. É importante que a comunidade se relacione com diferentes atores do ecossistema, incluindo universidades, aceleradoras, governos e outros atores que colaboram para fomentar o empreendedorismo e a inovação.

    Porém, é fundamental que o grupo seja liderado por empreendedores de startups, e não por organizações de fomento ou instituições de ensino.

    Empreendedores em diferentes fases de desenvolvimento (early stage, scale-up, etc.) devem fazer parte do grupo, para que aqueles que estão começando possam aprender com os mais experientes, enquanto os mais avançados podem encontrar novas oportunidades de colaboração e mentoria.

    Em Barretos, o Bruto Valley nasceu com cerca de 5 startups “fundadoras” da comunidade e hoje reúne um grupo de trabalho de aproximadamente 10 pessoas responsáveis por liderar as iniciativas, enquanto o grupo geral da comunidade conta com mais de 250 participantes, na maioria empreendedores ou potenciais empreendedores.

    Se você pretende criar uma comunidade de startups na sua região (ou em torno da sua empresa), o primeiro passo é reunir um grupo diverso de empreendedores de startups.

    2. …com um mesmo propósito de impacto de longo prazo…

    Alinhar a comunidade em torno de um propósito compartilhado e uma visão de longo prazo é fundamental para manter a comunidade coesa e motivada ao longo do tempo, independentemente dos desafios que surgem.

    Esse propósito deve ser maior do que apenas o sucesso individual das startups, focando no impacto coletivo e no desenvolvimento da comunidade como um todo.

    Através de OPPs (oficinas de planejamento participativo), desde 2019 no Bruto Valley reunimos a comunidade anualmente para discutir o propósito e criar as ações estratégicas que irão nortear as iniciativas específicas.

    Brad Feld enfatiza que comunidades de startups são construídas ao longo de décadas, não de anos. Isso requer paciência, resiliência e a compreensão de que os resultados podem demorar.

    Se você pretende criar uma comunidade de startups na sua região (ou em torno da sua empresa), precisa responder à pergunta: qual a motivação por trás da vontade de criar uma comunidade de startups?

    3. …realizando iniciativas contínuas de fomento e geração de resultados para as startups da comunidade.

    A comunidade de startups precisa ser constantemente nutrida por atividades que mantenham os membros engajados e ativos. Eventos e iniciativas de encontro criam oportunidades de networking, aprendizado e visibilidade para os empreendedores.

    Atividades como hackathons, meetups, workshops, palestras e sessões de mentoria são essenciais para manter a comunidade viva e conectada. Esses eventos incentivam a troca de experiências e colaboram para a criação de novos projetos e parcerias e não devem ser feitos “quando possível”, mas sim planejados e organizados de forma a cumprir os objetivos esperados.

    Para manter a comunidade motivada, é importante que as iniciativas gerem resultados visíveis, seja por meio da criação de novas startups, investimentos recebidos ou expansões de mercado. As conquistas das startups devem ser celebradas e compartilhadas com a comunidade, reforçando o valor do ecossistema.

    Criar e sustentar uma comunidade de startups não é uma tarefa simples, mas, ao longo dos anos, é um processo que traz recompensas incalculáveis, tanto para os empreendedores quanto para a região onde a comunidade se desenvolve.

    Com a combinação certa de diversidade, um propósito de longo prazo e iniciativas contínuas, é possível formar um ecossistema vibrante que impulsiona a inovação e o empreendedorismo de maneira sustentável.

    No caso do Bruto Valley, esses princípios provaram ser fundamentais, transformando uma simples ideia em um motor de crescimento regional. O caminho para criar uma comunidade de startups exige comprometimento, resiliência e colaboração, mas quando bem conduzido, o impacto pode ser profundo e duradouro.

  • Sua startup não precisa de favores, precisa buscar product-market fit!

    Sua startup não precisa de favores, precisa buscar product-market fit!

    Você não precisa de um favor!

    Recentemente acompanhei um desabafo público no LinkedIn escrito por um empreendedor de uma startup narrando as dificuldades para manter seu negócio viável no Brasil. O post estilo “textão” acompanhava a exposição de sucessivas respostas negativas recebidas pela startup oriundas de fundos de investimento, agências de fomento e até mesmo clientes. A mensagem central era: “o Brasil não apoia seus talentos”.

    Não é fácil criar e escalar negócios no Brasil (principalmente negócios inovadores de alto risco – leia-se: startups). Eu mesmo já experimentei na pele como empreendedor 2 vezes (tentar) escalar negócios no país por quase quatro anos, lutando contra burocracia, alta taxa de juros para tomada de capital, complexidade tributária e dificuldade de acesso a fomento qualificado. Tudo isso, quase 10 anos atrás quando o ecossistema era ainda mais “mato alto” do que hoje.

    Porém, startups não precisam de um favor de qualquer agente do ecossistema!

    Não é responsabilidade de fundos de investimento tomar risco por você, nem o governo investir na sua ideia/pesquisa sem evidência mínima de viabilidade e muito menos um cliente comprar a sua solução se você não tiver uma hipótese CLARA e DECLARADA de modelo de negócio, evidenciando um caminho para encontrar o product-market fit.

    “Qual ‘ponteiro’ sua solução influencia?”

    Essa foi a pergunta que fiz para essa mesma startup durante uma das mentorias que tivemos meses antes do “textão”. Ou seja, qual o resultado CLARO e DECLARADO (novamente) você cria para o seu cliente? A resposta foi: “podemos descobrir isso com o tempo, só precisamos de recurso para desenvolver e validar nosso produto em um cliente real, só isso”.

    O jogo de mercado no mundo real não funciona dessa forma.

    Novamente, não é responsabilidade de nenhum ator do ecossistema aportar tempo, esforço ou recurso financeiro (ou todos eles) na ideia “genial” do seu negócio sem que você tenha hipóteses viáveis de resultados que podem ser gerados para o seu principal stakeholder: seu cliente.

    Construir um produto mínimo (viável) que prove essa hipótese e torne atrativa a troca da solução por um valor monetário é a grande missão de qualquer startup nos meses iniciais de qualquer negócio.

    Quando sua startup consegue trocar valor (monetário = R$) por um produto/serviço de forma recorrente, com baixo atrito para conversão e com custo operacional menor do que o valor trocado, existe uma evidência de que você tenha encontrado o product-market fit. Mas essa é uma jornada árdua.

    Métricas, métricas e métricas

    Em alguns segmentos a jornada é ainda mais árdua (por exemplo, a saúde, onde é necessário alto investimento em construção de evidências científicas e superação de barreiras regulatórias). Mas isso não exime sua responsabilidade de entregar (ou deixar claro como entregará) resultados para o seu cliente.

    Caso contrário, não é obrigação de qualquer stakeholder fazer o “favor” de investir em seu negócio como uma aposta vazia. Portanto, no dia “zero” de qualquer startup, deve-se responder à pergunta: qual ponteiro de performance influencio para o meu cliente?

    Geralmente, o resultado está ligado a um dos quatro ponteiros abaixo:

    • Aumento da receita/faturamento;
    • Diminuição de custo percebido;
    • Aumento da eficiência/produtividade;
    • Cumprimento de exigências legais.

    Todas essas hipóteses devem ser diretas e específicas, não promessas vazias do tipo “melhorar a experiência dos clientes”, “tornar a vida dos usuários mais fácil”, “software mais fácil de usar do que os concorrentes” ou “solução mais barata”. Sim, todas essas são afirmações que já ouvi em discursos comerciais e não influenciam diretamente nenhum resultado dos clientes nos quatro ponteiros acima,

    Ao influenciar pelo menos um dos quatro ponteiros, você cria uma justificativa plausível para que seu cliente tome a decisão de trocar valor (monetário = R$) pelo produto/serviço da sua startup. Pode ser que isso não seja claro (e provado) desde o início, e é justamente para isso que acordos de validação ou provas de conceito passam a fazer sentido para os dois lados.

    Por fim, não transfira a responsabilidade!

    É claro que capital de risco e agências de fomento possuem papel fundamental no desenvolvimento dos negócios inovadores do país. Empreendedores mais maduros elevam a maturidade do ecossistema e, consequentemente dos projetos nascentes por aqui.

    Muito além do “textão” transferindo a responsabilidade declarando que “ninguém acredita na minha ideia” é papel de todo time empreendedor fazer a lição de casa MUITO bem feita, em alto nível, de preferência em padrão global.

    Sua startup não precisa de um favor de qualquer agente do ecossistema, mas sim precisa do dinheiro mais saudável em qualquer negócio: o do cliente. Acorde todos os dias buscando o caminho mais rápido para colocar esse dinheiro no seu caixa. Mas aceite: esse dinheiro só virá quando você for capaz de gerar resultados concretos para seu cliente. Caso contrário, aguarde (sentado) pelos favores do ecossistema.

  • Notas de Mentoria | As minhas notas de mentoria em formato de newsletter

    Notas de Mentoria | As minhas notas de mentoria em formato de newsletter

    Vida corrida, centenas de fontes de informação para gerenciar, livros atrasados, posts a fazer, artigos para escrever, dezenas de conversas no WhatsApp para responder, 3.000 e-mails não lidos na caixa de entrada e… tive uma ideia! E se eu fizesse uma newsletter?

    Mais uma newsletter sobre inovação?

    NÃO! Muita gente boa e muito conteúdo relevante pode ser consumido no LinkedIn se você tiver paciência de limpar seu feed com o conteúdo raso das 5 dicas criadas pelo GPT e publicadas no perfil do “especialista” marketeiro.

    Tive paciência e “treinei” o meu algoritmo seguindo gente (e newsletters) com relevância de contéudo e história de vida pra compartilhar coisa boa! Então, não precisamos de mais uma newsletter de inovação!

    Aqui você NÃO vai encontrar conteúdo do tipo “Saiba mais sobre o conceito X” ou “7 passos para implementar o conceito Y”. Como disse, tem outras fontes (boas) que entregam isso muito bem!

    Essa newsletter é quase um diário de vida de um profissional que trabalha no campo real da inovação há mais de 10 anos. Você não vai encontrar resposta pra tudo aqui (talvez até enconte mais dúvidas, desafios e frustrações reais do que respostas).

    Mas é sobre vida real.

    Nota: recentemente publiquei um artigo no LinkedIn que aborda um pouco da minha jornada na área de inovação e o que eu aprendi nos últimos 10 anos. O link está aqui.

    Fonte dessa newsletter: um caderno (caótico) de anotações

    Pensei nessa newsletter como um “diário” de aprendizado próprio compartilhada quinzenalmente. Insights e lições que derivam de conceitos conhecidos e validados que ganham novos significados no mundo real são pouco explorados e se resumem no “mundo das lamentações” quando pessoas que trabalham com inovação se encontram nos eventos por aí.

    Aqui, vou tentar trazer à tona essas percepções e o que aprendo mentorando startups do Brasil todo e atuando na gestão de um Centro de Inovação do maior complexo de tratamento oncológico da América Latina, o Harena no Hospital de Amor.

    A fonte disso tudo é um caderno bagunçado com anotações, dezenas de notas no Google Keep criadas semanalmente e diversos links favoritados no Google Chrome. Esse é o caderno (caótico) que me ajuda a anotar coisas importantes.

    E o sobre o que e quando vou falar?

    Os bastidores e mundo real da vida na área de inovação.

    Por favor, não espere um conteúdo linear e conceitual para aprender temas de inovação. Vou falar em formato de narrativas reais (ocultarei nomes de empresas e personagens por motivos óbvios) que geraram aprendizados trabalhando com inovação.

    Para isso, organizei (por enquanto) três tópico pra servir de guia editorial de cada edição:

    1. Os insights de mentorias com empreendedores de startups: visões e aprendizados não óbvios gerados a partir das discussões com empreendedores em mentorias que realizo semanalmente.
    2. Os bastidores da inovação corporativa: aprendizados obtidos na criação, gestão e condução de iniciativas de inovação dentro de grandes empresas, gerados a partir de experiência própria e conversas com colegas que ocupam cargos de gestão da inovação em grandes empresas.
    3. A carreira na área de inovação: os desafios e as oportunidades para quem já está na área e para profissionais que querem migrar para a promissora (e desafiadora) área de inovação.

    E você, vem comigo?

    Seja comentando, compartilhando, convidando um colega ou simplesmente corrigindo os meus erros (que certamente acontecerão), será divertido fazer essa newsletter publicamente e ao vivo lá no meu LinkedIn.

  • HIMSS 2024: os grandes temas e tendências para startups da saúde

    HIMSS 2024: os grandes temas e tendências para startups da saúde

    A conferência HIMSS é um evento anual que reúne profissionais da saúde, tecnólogos, pesquisadores e empresários de todo o mundo para discutir e explorar as últimas inovações em saúde digital e gestão de informações de saúde. A edição de 2024 ocorreu em Orlando (EUA), e contou com a participação de mais de 30.000 profissionais de mais de 70 países, destacando-se como o maior encontro de profissionais de tecnologia da saúde em âmbito mundial​.

    Neste artigo, vou apresentar alguns dos principais insights e tendências que percebi na minha participação no evento em 2024. A HIMSS se consolida como um encontro que marca os grandes temas da saúde digital e tecnologia no mundo, tornando-se referência para executivos do setor.

    Neste artigo, vou apresentar:

    1. As tendências transversais aos grandes temas do evento
    2. Os grandes temas da conferência
    3. Abordagens para startups da área da saúde

    1. Tendências transversais aos grandes temas

    Duas tendências já discutidas em outros momentos e eventos continuaram a ser assunto recorrente vinculado aos grandes temas do evento. A primeira é uma lógica crescente de organização das soluções em modelos de negócio em plataforma, reforçando a necessidade de integração dos dados e jornadas de saúde. A segunda é a capacidade financeira de absorção dos sistemas de saúde para novas tecnologias, reforçando o tema de saúde baseada em valor.

    Organização de soluções em modelos de negócio em plataforma

    A primeira tendência transversal percebida já nas primeiras horas de conferência foi a crescente preocupação dos grandes players em criar ecossistemas integrados que facilitam a colaboração e a inovação.

    Esses modelos de plataforma buscam conectar diferentes stakeholders no setor de saúde, como prestadores de serviços, pacientes, desenvolvedores de tecnologia e pesquisadores, para gerar valor através do compartilhamento de dados, insights e funcionalidades. O objetivo é criar ambientes em que os participantes possam se beneficiar de acesso mais fácil a informações, serviços melhorados e inovação acelerada.

    Não foi raro casos em que grandes empresas compartilhavam o mesmo espaço/stand com soluções totalmente integradas complementando processos específicos. Essa abordagem visa não apenas melhorar a eficiência e os resultados dos cuidados de saúde, mas também impulsionar a transformação digital e a inovação contínua no setor.

    Saúde baseada em valor (VBHC) nas mesas de negócio

    O Value-Based Health Care (VBHC), saúde baseada em valor, foi um tópico recorrente nas mesas de apresentação de soluções e negociação, refletindo a transição do setor de saúde para um modelo mais focado nos resultados (desfecho e financeiros) do paciente.

    Essa abordagem enfatiza a entrega de cuidados de saúde que são medidos e remunerados com base na qualidade e eficácia dos resultados clínicos em relação ao custo. O tema é recorrente, mas é nítido que o setor no mundo todo ainda precisa de passos significativos nesse sentido.

    As discussões em torno do VBHC abordaram como as organizações podem implementar estratégias e tecnologias para melhorar a qualidade do atendimento, reduzir custos e otimizar a experiência do paciente. Já não existe mais discussão de tecnologia sem análise de efetividade e viabilidade financeira, reforçando a dificuldade do sistema em absorver financeiramente a tecnologia isolada.

    Isso incluiu a adoção de tecnologias digitais, principalmente baseada em dados, para analisar e melhorar os resultados dos cuidados de saúde, incentivando práticas que alinham os interesses dos prestadores de cuidados, pacientes e pagadores para promover cuidados mais eficientes e eficazes.

    2. Grandes temas da conferência

    O HIMSS 2024 abordou uma gama enorme de tópicos e tecnologias emergentes, mas três temas principais se destacaram:

    Inteligência Artificial (IA)

    Como não poderia ser diferente em 2024, a inteligência artificial (AI) na saúde foi um tema central do evento, com ênfase particular na IA generativa. Além das aplicações já conhecidas para melhorar a precisão diagnóstica por entradas de dados diversos (texto, imagem e, agora, vídeo), o tema mais explorado foi o uso de IA para personalizar o atendimento ao paciente.

    As discussões abordaram como a IA pode otimizar os fluxos de trabalho clínico e administrativo, reduzindo o tempo gasto em tarefas operacionais e permitindo que os profissionais de saúde se concentrem mais no cuidado ao paciente, abordando muito o conceito de personalização em massa.

    Dentro do tema de Inteligência Artificial, grande parte das discussões destacaram também a necessidade de abordar as implicações éticas e legais da integração da IA na saúde, como questões de privacidade de dados, consentimento informado e como evitar o viés algorítmico, garantindo que a IA seja usada de maneira justa e transparente.

    Cibersegurança e proteção de dados

    Os recentes ataques cibernéticos em instituições de saúde, abordados diversas vezes na conferência, trouxeram à tona a necessidade de estratégias robustas de proteção de dados no setor de saúde, especialmente contra os ataques, reforçando a importância da inovação e colaboração contínua em cibersegurança​.

    Foi abordada a preocupação crescente, além da camada de tecnologia, com o fortalecimento de cultura de cibersegurança em toda a organização, desde a formação e conscientização dos funcionários até a implementação de tecnologias avançadas para detectar e prevenir ameaças. A cooperação entre organizações de saúde, fornecedores de tecnologia e reguladores também foi considerada essencial para fortalecer a defesa contra ameaças, reforçando o tema transversal de plataformas.

    Interoperabilidade de dados e integração tecnológica

    A interoperabilidade de dados e a integração tecnológica foram amplamente discutidas, com um foco particular na maneira como esses elementos são fundamentais para impulsionar o cuidado baseado em valor (VBHC). Diversas sessões de conteúdo da conferência exploraram como a integração eficaz de diferentes sistemas e tecnologias de saúde pode melhorar a coordenação do atendimento, otimizar os resultados dos pacientes e reduzir custos.

    A interoperabilidade não é apenas uma questão técnica, mas também uma questão de política pública e prática, exigindo a colaboração entre provedores de saúde, tecnólogos e reguladores. A necessidade de padrões comuns de dados para permitir o compartilhamento seguro e eficiente de informações de saúde entre diferentes plataformas e instituições foi um ponto-chave. Isso inclui a adoção de normas e padrões únicos de dados e a implementação de protocolos de comunicação que facilitam a troca de dados entre diferentes sistemas de saúde.

    3. Abordagens para startups

    Além das sessões de conteúdo, o evento também proporciona uma vitrine e discussões relevantes para startups que estão remodelando o setor de saúde com soluções inovadoras. Programas da própria HIMSS e o Startup Park (bloco da exposição dedicado às startups), destacaram as oportunidades para startups e empreendedores, focando principalmente nos grandes temas (Inteligência Artificial, Cibersegurança e Interoperabilidade) para resolver problemas de saúde atuais e futuros.

    O cenário atual para startups no setor de saúde, apesar das grandes oportunidades, é delicado e exige cautela dos empreendedores. Um grande desafio discutido foi o acesso ao capital para inovação em saúde, que continua sendo uma grande barreira, especialmente para startups em estágios iniciais.

    A necessidade de investimentos substanciais em pesquisa e desenvolvimento, juntamente com a complexidade regulatória do setor de saúde, pode expor novos negócios a cenários de risco extremo. Além disso, as startups precisam provar a eficácia e a segurança de suas inovações em um ambiente extremamente regulado, o que frequentemente exige ensaios demorados e caros.

    Outro ponto da discussão em destaque para as startups de saúde foi o ambiente cada vez mais competitivo e desafiador com as bigtechs (Google e Microsoft, por exemplo), que criam soluções cada vez mais sofisticadas que substituem soluções desenvolvidas por startups nos últimos anos, já integradas e no formato “plug and play”.

    Essas empresas possuem recursos técnicos, financeiros e canais substancialmente superior, o que lhes permite desenvolver soluções de inteligência artificial altamente sofisticadas e prontas para serem implementadas.

    Além disso, as soluções das bigtechs frequentemente vêm com a promessa de integração nativa com outras tecnologias já utilizadas por hospitais e clínicas, aumentando o atrativo para os clientes finais. Este cenário pode limitar o espaço para inovações independentes e diminuir a visibilidade de soluções disruptivas propostas por startups, forçando-as a encontrar nichos muito específicos ou a inovar de maneiras que as grandes empresas ainda não exploraram.

    Conclusão e perspectivas futuras

    A HIMSS 2024 reafirmou a importância de combinar tecnologia, processos e pessoas para inovar no setor de saúde. Para startups, isso significa uma grande oportunidade de se destacarem no mercado global de saúde, adotando inovações tecnológicas, focando em segurança cibernética e colaborando com parceiros estratégicos para desenvolver soluções que melhorem o cuidado ao paciente e otimizem os custos operacionais.

    Nas últimas semanas, também participei de um painel sobre as tendências da HIMSS com os colegas Dr. Luis Romagnolo (Hospital de Amor), Marcelle Bronzoni (Elsevier) e Richard de Martini (Siemens Healthnieers), você pode assistir o conteúdo na íntegra abaixo:

  • Experimento estoico: aprendizados, virtudes e prática nos primeiros 90 dias

    Experimento estoico: aprendizados, virtudes e prática nos primeiros 90 dias

    Em meados de agosto publiquei o primeiro story no meu Instagram com um fundo preto e uma frase de Epíteto de quase 2 mil anos atrás: “Make the best use of what is in your power, and take the rest as it happens“. Repeti esse experimento por exatos 60 dias ininterruptos alinhando a busca de frases conhecidas da filosofia com inserções práticas na minha rotina pessoal e profissional. Ao tornar público, me “auto incentivava” a manter a busca diária e o compromisso de reservar os primeiros minutos do meu dia a entender como poderia incluir uma prática diferente na minha rotina.

    E o estoicismo é exatamente sobre PRÁTICA, não apenas estudo.

    Durante os 30 dias subsequentes não publiquei mais frases, mas utilizei o período para uma percepção sobre 4 principais aprendizados de muitos insights que eu tinha tomado nota nos primeiros 60 dias do experimento, buscando analisar como se comportavam após o estímulo positivo imediato do aprendizado. Nesse artigo, vou compartilhar as 4 notas e minhas percepções dos primeiros 90 dias da prática estoica.

    Antes disso, segue um resumo sobre o que é o estoicismo e os conceitos conhecidos da filosofia. Obs.: você vai encontrar artigos melhores em outros sites/blogs, meu objetivo não é fazer um artigo sobre “o que é estoicismo?”, mas sim compartilhar meus aprendizados sobre meu experimento em 90 dias.

    Estoicismo: 2 mil anos de uma filosofia ainda atual

    Apesar da “fundação” da primeira escola considerada estoica ser datada de 300 a.C., a filosofia se mantém extremamente atual. Zanão de Cítio, que inicialmente era um mercador nas regiões gregas, criou em Atenas a “Stoa Poikile”, um ambiente aberto ao público onde ensinava os fundamentos da sua filosofia.

    Apesar da origem grega, a filosofia ganhou notoriedade com os romanos após a incorporação da Grécia pelo Império Romano. O fato é que muitas obras e registros escritos do estoicismo inicial não sobreviveram ao tempo. É exatamente por isso que não existe um documento ou livro único com os “X princípios definitivos do estoicismo”, pois cada obra posterior sobre o tema é uma releitura, interpretação e/ou registro pessoal sobre os princípios da filosofia, como é o caso da obra “Meditações”, um diário filosófico de Marco Aurélio em formato de notas pessoais.

    Apesar de existir pensamentos conhecidos atribuídos ao estoicismo, cada publicação do tipo “10 princípios”, “8 fundamentos”, “5 virturdes” ou “7 valores do estoicismo” são interpretações adaptadas dos registros iniciais conhecidos da filosofia e, portanto, a PRÁTICA se torna a essência dessa filosofia na ausência de um “guia definitivo” de como se tornar um estoico em 90 dias.

    Dado o contexto, deixo claro que o objetivo desse artigo não é um manual ou guia para você se tornar um estoico em 90 dias, mas um registro pessoal da minha jornada de aprendizado com os registros de Sêneca, Epíteto, Marco Aurélio e companhia. Então, vamos ao que interesssa.

    #01 | Dicotomia do controle

    Meu primeiro grande aprendizado foi sobre “controle”. Os principais pensamentos sobre controle no estoicismo são atribuídos a Epíteto, inclusive esse é seu primeiro pensamento apresentado em Enchirídion (considerado o Manual de Epíteto). Temos a tendência de sofrer ou nos preocupar excessivamente em situações que estão fora do nosso controle ou influência e, segundo Epíteto, a aflição e sofrimento nascem em focar naquilo que não controlamos.

    “Faça o melhor com o que estiver em seu poder, e apenas aceite o que vier a acontecer. Algumas coisas estão ao nosso alcance e outras coisas não estão.”

    Epíteto

    O fato é que assumir a responsabilidade exclusivamente pelo que você controla é um exercício difícil. Nos preocupamos com a cotação do dólar, com a resposta do cliente sobre a proposta enviada, com o que as pessoas vão achar do nosso relatório ou em ficar doente antes de uma viagem de férias.

    O sofrimento surge da nossa vontade de controlar esses resultados, que estão necessariamente fora de nosso controle. O controle está em nosso esforço para influenciar essas ações, mas não controlamos o efeito.

    A dicotomia do controle se baseia na ideia de que todas as coisas podem ser classificadas em duas categorias: (1) coisas que podemos controlar e (2) coisas que NÃO podemos controlar. Por exemplo, há pessoas que se preocupam excessivamente sobre como outras pessoas podem julgar algo da sua personalidade ou trabalho. A verdade é que o pensamento de outra pessoa está FORA do nosso controle, o que estaria no lado incontrolável da equação da dicotomia. Agora, ser gentil e atencioso com uma pessoa está do lado controlável da equação, portanto é algo que você pode influenciar (e agir) para levar ao pensamento esperado. Porém, após agir, controlar o pensamento de outra pessoa está fora da nossa possibilidade humana. Portanto, esse não deve ser mais motivo de preocupação.

    Sendo o mais prático possível, situações corriqueiras do dia a dia, tais como o atraso de um cliente, a falta de educação de uma pessoa no trânsito, a previsão do tempo ou a segurança de um voo são coisas absolutamente fora do nosso controle que, portanto, não merecem nossa energia.

    #02 | Autorresponsabilidade

    A percepção sobre a qualidade do nosso pensamento e entender que é possível criar estratégias para assumir o controle sobre o que pensamos foi, com certeza, o maior choque de aprendizado que tive nesses primeiros 90 dias. Esse foi o segundo aprendizado!

    Sabe aquele pensamento que fica “martelando” em nossa mente que o projeto X não vai dar certo? Muitas vezes nem sequer percebemos que esse pensamento existe, mas podemos ser conscientes sobre ele e, o melhor de tudo, influenciá-lo.

    “A felicidade de sua vida depende da qualidade de seus pensamentos.”

    Marco Aurélio

    A autoconsciência é a percepção de que esse tipo de pensamento existe o tempo todo flutuando em nossa cabeça. O fato aqui não é ter como regra ser otimista ou positivo em todas as situações, isso não existe. Mas, perceber que um pensamento negativo que está divagando em nossa mente existe e isso afeta a sua energia, deixando você triste ou ansioso, é o primeiro passo de se tornar consciente sobre a qualidade do seu pensamento.

    Aí nasce a autorresponsabilidade! Você percebeu que o pensamento X é negativo e influencia sua energia? Use a dicotomia do controle novamente: se o resultado do projeto está nas mãos de outra pessoa e não há influência possível sobre o resultado, isso está fora do nosso controle. Se você pode agir sobre o resultado, a autorresponsabilidade deve guiá-lo a construir uma estratégia de substituir o pensamento “e se o projeto X não der certo?” por “quais ações eu posso fazer para fazer o projeto X dar certo?

    A autorresponsabilidade é um nível de consciência de que podemos influenciar a qualidade do pensamento e criar estratégias para assumir o controle daquilo que podemos influenciar. O pensamento negativo do tipo “e se o piloto do avião não estiver em um dia bom?” só causa sofrimento e desgaste desnecessário. Nesse caso, a qualidade do pensamento influenciou sua felicidade.

    #03 | Qualidade do tempo

    É uma experiência assustadora entrar no gerenciador de bem-estar do seu smartphone e ver quanto tempo você perde em determinados aplicativos. Se você nunca fez, sugiro fazê-lo agora! Tanto o Android quanto iOS possuem recursos de monitoramento de uso.

    Sabe aquele scrolling no Instagram quando você chega do trabalho e o sofá te abraça? Não foi só 10 minutinhos. O Brasil é o segundo país do mundo no ranking de tempo de tela, ficando também em terceiro lugar na quantidade de tempo usado em redes sociais. O brasileiro gasta, em média, 3h31min em redes sociais todos os dias (fonte: Global Digital Overview e Hootsuite).

    Considerando que a leitura de um livro comum leva entre 6 e 8 horas, apenas diminuindo pela metade o tempo de redes sociais, um brasileiro comum conseguiria incluir a leitura de 4 livros por mês em sua rotina.

    As pessoas são frugais na guarda de seus bens pessoais; mas assim que se trata de desperdiçar tempo, eles perdem aquilo em que é justamente certo ser mesquinho”.

    Seneca

    Este é apenas um exemplo sobre a qualidade no uso do tempo e é claro que não precisamos nos tornar alienados à tecnologia ou redes sociais para buscar uma vida plena. O meu exercício pessoal neste tópico sobre qualidade do tempo foi fazer um timeboxing da minha agenda para visualizar a alocação de tempo naquilo que era mais importante e, de fato, influenciava os resultados que buscava.

    Certa vez ouvi que o tempo é o recurso mais democrático que existe, pois todas as pessoas do planeta possuem as mesmas 24 horas no dia. O exercício aqui é perguntar continuamente como você está usando suas horas para construção daquilo que você deseja.

    #04 | Consistência

    Um dos ensinamentos estoicos presente nos pensamentos de três entre os principais estoicos (Epíteto, Marco Aurélio e Seneca) é a capacidade de aceitar seu destino e a forma como as coisas acontecem em sua vida com serenidade e temperança, sem excesso ou lamentações do tipo “por que isso aconteceu comigo?” ou “eu nunca tive sorte na vida”.

    O julgamento do destino sob a ótica moderada não anula a necessidade do esforço em ser o tipo de pessoa que gostaríamos de ser. A consistência deste esforço é o ponto fundamental para análise do resultado. Ou seja, precisamos mudar a análise do resultado para o quão consistentes fomos em conseguir aquele resultado que gostaríamos.

    O fato de não ter sido promovido ou não conseguir comprar o carro do seu sonho, não nos torna menos afortunados ou sujeitos sem sorte na vida. Essa análise única (da linha de chegada) é fria e vazia. Em vez disso, a análise da compatibilidade do nosso esforço com o resultado esperado é mais coerente, e a consistência se torna o ponto fundamental para busca desses resultados

    “Primeiro diga a si mesmo o que você seria; e então faça o que você tem que fazer.”

    Epíteto

    Há quase 8 anos, escrevo (ou atualizo) próximo ao mês de dezembro uma descrição de mais ou menos uma folha de como eu me vejo nos próximos 10 anos. Aprendi isso em um curso comportamental que fiz em 2014 e repito essa tarefa sempre ao final de cada ano. Esse exercício me ajuda a ter clareza de quem eu gostaria de ser e qual o esforço hoje me direcionaria para esse resutado.

    Porém, a comparação do resultado (no caso, minha frase escrita de como eu seria daqui 10 anos) é vazia se não comparada com a consistência do esforço para chegar lá. Ser consistente é manter uma linearidade no médio a longo prazo de ações que, quando combinadas, interferem positivamente na conquista ou construção de um resultado até então inexistente.

    Com esse exercício estoico de 90 dias, mudei a percepção da minha análise que, anteriormente estava atrelada exclusivamente ao resultado (linha de chegada), para uma visão de que o esforço e o aprendizado incremental consistente faz parte do resultado final já que, muitas vezes, o resultado depende também de acontecimentos que estão parcial ou totalmente fora do nosso controle. Portanto, a consistência por si só também é uma medida importante de sucesso.

    Você pode não ter comprado o carro do seu sonho no período planejado, isso na lógica míope seria um fracasso. Mas no mesmo período, você pode ter tido a oportunidade de fazer uma viagem internacional ou precisou direcionar recursos financeiros para problemas de saúde com um familiar. Nessas duas situações, seu mérito é parte do processo e, portanto, a análise do resultado final (carro do sonho) é frio se comparado com as condições do percurso. A análise mais prudente é a linha de chegada comparada com o esforço (e consistência) do caminho.

    E agora… estoico?

    Entendo esse experimento como um passo inicial de uma jornada longa de aprendizado (não apenas sobre estoicismo por si só, mas como viver uma vida moderada aprendendo constantemente). O nome da filosofia, metodologia, prática ou técnica empregada é menos importante do que o aprendizado em si.

    Não existe um momento “AHAA” ou ponto da virada onde você se torna estoico como é o batismo em algumas religiões. Cada um de nós poderá ter um entendimento exclusivo e diferente sobre os ensinamentos estoicos e, no fim das contas, o que realmente importa é a capacidade de transformar esses aprendizados em ações práticas para uma vida que realmente vale a pena ser vivida.

    Talvez em mais 90 dias, esse artigo possa ganhar uma “versão 2” que seja complementar, diferente ou… divergente. Afinal, o aprendizado é repleto de “desaprendizados” no caminho.

  • ORGANIZAÇÕES EXPONENCIAIS: O que é? Por que sim? Como construir?

    ORGANIZAÇÕES EXPONENCIAIS: O que é? Por que sim? Como construir?

    Existe um certo fetichismo pairando no mundo dos negócios sobre construir startups. Parece que escrever algoritmos na janela do quarto e vestir um traje descolado no trabalho é o novo código de sucesso!

    Antes de continuar, anote esta chave que faz parte do bilhete dourado para ler este artigo: STARTUP NÃO É A VERSÃO PEQUENA DE UMA EMPRESA!

    Existe um grupo de empresas que cresce de forma exponencial, sistemática e possui muito mais organização e ciência por trás do seu sucesso do que muita gente pensa. Construir uma organização como Airbnb, Uber, Netflix ou Amazon, não é só “meter o louco”.

    Desculpe, mas tem muita biografia barata por aí construindo um processo mágico para o sucesso. Na contramão, existe um tipo de organização que utiliza técnicas organizacionais para tirar o melhor proveito possível do crescimento da tecnologia.

    O que é uma Organização Exponencial?

    Organizações Exponenciais (ou EXOs) são aquelas cujo impacto (ou resultado) é desproporcionalmente grande — pelo menos dez vezes maior — comparado ao de seus pares, devido ao uso de novas técnicas organizacionais que alavancam as tecnologias aceleradas.

    O conceito acima foi criado e é defendido pela Singularity University, uma universidade totalmente diferente dos padrões vigentes que funciona dentro do complexo da NASA no Vale do Silício e é apoiada por organizações de padrão mundial, como Google.

    Por que sim?

    O momento é de “desapego” aos modelos tradicionais que nos trouxeram até aqui. É preciso esquecer os rituais e métodos arcaicos de gestão vertical, trocando por horizontalização e liderança compartilhada.

    Temos uma legião de gestores lineares e tradicionais operando em um mundo complexo e exponencial.

    Para fazer frente ao mercado cada vez mais dinâmico e complexo, muitas organizações ao redor do mundo estão adotando métodos disruptivos de lidar com seus processos internos e interação com o mercado. Por experimentarem ritmos alucinantes de crescimento, essas organizações recebem um nome especial de “organizações exponenciais”, conforme já citamos acima.

    As organizações exponenciais não possuem a mesma paciência de crescimento das organizações tradicionais.

    Enquanto uma empresa típica da Fortune 500 (por exemplo Volkswagen, Walmart e Toyota) levaram em média 20 anos para alcançar o valor de mercado de 1 bilhão de dólares, empresas como o Google, fundado em 1998 levou menos de oito anos, enquanto a Oculus Rift, fundada em 2012, nem mesmo esperou completar o segundo ano de fundação.

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    Isto gera uma previsão de que em 2021, duzentas das quinhentas maiores empresas do mundo em 2011, deixarão de existir. As 40% menos adaptativas darão lugar às organizações mais ágeis, melhores e completas.

    Já conseguiu ter dimensão do que isso representa em sua vida? Faça um exercício simples: imagine como seria a sua vida a partir de hoje tirando apenas o Google, Netflix, Spotify e Uber da sua vida. Viu?

    Ah, não se esqueça de rebobinar o filme antes de devolver a fita na locadora =D

    Como construir uma Organização Exponencial?

    Aqui está o “X” da questão: não existe um processo mágico! No entanto, há alguns fatores que proporcionam escalabilidade destas organizações.

    Então, vamos às definições: uma organização exponencial é aquela que possui potencial de gerar um impacto extremamente grande utilizando tecnologias aceleradas, potencializando seu crescimento com técnicas organizacionais eficientes.

    Agora pegue a chave do seu bilhete dourado: STARTUP NÃO É A VERSÃO PEQUENA DE UMA EMPRESA! Startups são empresas que estão em estágios iniciais de desenvolvimento de produtos inovadores e possuem potencial de escala. Ou seja: podem ser organizações exponenciais.

    Em 2014, Salim Ismail e outros profissionais e professores da Singularity University (aquela mesmo já citei neste post) escreveram o livro Organizações Exponenciais, já considerado um dos livros de negócios mais transformadores do últimos anos.

    Nele, Ismail resume uma pesquisa realizada com mais de 100 empresas que possuem crescimento exponencial (incluindo Google, Airbnb, Uber, etc) para apresentar os 11 componentes críticos de sucesso destas empresas.

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    Estes componentes são divididos em 3 categorias: 5 componentes IDEAS, 5 componentes SCALES e um PROPÓSITO TRANSFORMADOR MASSIVO.

    “O Propósito Transformador Massivo não é uma declaração de missão, mas uma mudança cultural que move o ponto focal de uma equipe da política interna para o impacto externo. A maioria das grandes empresas contemporâneas está focada internamente e, muitas vezes, perde o contato com seu mercado e seus clientes.”

    O conjunto SCALE reflete os cinco atributos externos das organizações exponenciais, representados pela criatividade e o cenário de incerteza. Estes cinco atributos são: Equipes sob Demanda, Comunidade e Multidão, Algoritmos, Ativos Alavancados e Engajamento.

    O conjunto IDEAS reflete os cinco atributos internos das organizações exponenciais. Basicamente, representam o lado da estabilidade e controle da organização. Estes cinco atributos são Interfaces, Dashboards, Experimentação, Autonomia e Interfaces Sociais.

    Por meio destes componentes, as organizações exponenciais conectam as possibilidades criadas pelas tecnologias aceleradas e uma capacidade ímpar de colocar tudo em prática utilizando técnicas organizacionais extremamente eficientes.

    Acredite: construir uma organização exponencial é muito mais que “meter o louco”!

  • Sobre limites e a busca da perfeição

    Sobre limites e a busca da perfeição

    Fletcher é um mentor “casca-grossa”. Com um tom de voz intenso, um biotipo físico que marca presença e um ar superior de quem carrega experiência pesada na mochila, Fletcher é respeitado como nenhum outro professor no Conservatório Shaffer, a escola de música mais premiada dos Estados Unidos. Seu propósito é levar seus mentorados-alunos à um nível que jamais imaginariam chegar sozinhos.

    Fonte: Whiplash: Em Busca da Perfeição (2014)

    Neiman é o menino pródigo da bateria. Apesar da pouca idade, se destaca na Shaffer e ganha vaga no seleto time da banda de Fletcher, a Studio Band. Neiman dedica a maior parte das horas do seu dia ao treino e estudo da música, sacrificando sua vida social, amigos e até sua namorada pela banda. Seu propósito é ser um dos maiores músicos da sua geração.

    Fonte: Whiplash: Em Busca da Perfeição (2014)

    O destino aparentemente trabalha a favor da aproximação de Fletcher e Neiman, e o cenário da música finalmente está próximo de conhecer seu próximo astro. Aparentemente, as condições são ideais: um ótimo mentor exigente e um menino pródigo, ambos com vontade de fazer história.

    Eis, porém, que a fórmula da tragédia começa a se compor. Fletcher é constantemente agressivo com Neiman (assim como com todos os seus outros mentorados), cria um ambiente hostil na Shaffer e expõe seus alunos à situações de estresse todos os momentos. O menor erro, dentre todos os acertos possíveis, pode custar a sua cabeça na Studio Band somada à uma ridicularização pública.

    Fletcher cria uma tropa de elite de alunos na Studio Band.

    Neiman leva sua oportunidade à sério e, em determinado momento, molda toda a sua vida pessoal à música. Termina um relacionamento com uma garota, discute com sua família à mesa de jantar defendendo os seus sonhos e coloca sua saúde e vida em risco ao se submeter à condições extremas de prática da bateria.

    Em sentido contrário do sucesso musical, o enredo coloca os dois personagens em rota de colisão consigo mesmos. A busca pelo próximo astro (o “vencedor”) parece não ter limites, e é aceitável na banda de Fletcher comportamentos como obsessão, sacrifício e compulsão.

    Este é o cenário pintado na trama do filme Whiplash (2014). Mas, além da ficção, os personagens que nos parecem hollywoodianos podem, de repente, se tornarem muito mais reais do que imaginamos. Você pode ser vizinho de um Fletcher, ter um primo Nilman ou cruzar com várias dessas figuras na rua todos os dias. Pode identificar alguns na sua sala da faculdade, no seu emprego e talvez Fletcher seja até mesmo seu chefe, apenas querendo que você seja um excelente profissional.

    Até que um dia, bem menos do que de repente, você se olha no espelho e se vê na figura de Neiman. Um Neiman sacrificando a sua família pelo sonho de se tornar um presidente de uma grande empresa, um jogador de futebol ou o melhor vendedor da sua firma. Talvez olhe para o espelho e se veja como um Fletcher. Um Fletcher que é capaz de ridicularizar e humilhar seus pares de trabalho, querendo que todos sejam campeões como você.

    Diferente de estragar o desfecho do drama vivido por Neiman e Fletcher, escrevi este texto para compartilhar três lições sobre valores pessoais que o filme me fez revisitar na minha rota pessoal. Sem spoilers e sem demagogia, vamos lá!

    SER UM “CAMPEÃO” NÃO RESPONDE TODAS AS PERGUNTAS

    Aparentemente, a dedicação de Neiman à bateria e aos ensaios parece inspirador aos nossos olhos de meros mortais. Olhando sob outra perspectiva, porém, é possível ver a toxicidade do seu propósito, que corrompe seu ego e o transforma em uma máquina fria. É criada uma sensação de que “ser o melhor da sua geração” responderá todas as perguntas sobre sua existência.

    O que, de fato, significa ser “campeão”, ou “ o melhor”? Estar disposto a pagar o preço para chegar lá é muito mais do que um tradeoff entre seu bem-estar e seu sucesso. Um típico Neiman, focado somente na realização do seu sonho, escolhe abdicar da família, amigos, saúde, bem-estar e relacionamentos saudáveis para simplesmente “ser o melhor”.

    A escolha de Neiman parece ser a escolha dos heróis e dos verdadeiros campeões. Sob uma perspectiva cega, é aqui que homens são separados dos meninos. Realizar o sonho de ser CAMPEÃO responde todas as perguntas? Me parece que existe um caminho alternativo mais eficiente.

    A AGRESSIVIDADE NÃO ACELERA RESULTADOS

    [Mini-spoiler aqui] A cena de Neiman trabalhando no balcão de uma lanchonete parece a metáfora perfeita. É o próximo ídolo da música americana trabalhando em um emprego qualquer.

    Quando finalmente estamos de “saco cheio”, simplesmente devemos mudar de rota. E não tem nada de errado nisso!

    A agressividade de Fletcher leva seu time a um cenário de competição e stress que mina a energia e mata os relacionamentos dos seus liderados. Não existe vida pessoal e familiar andando em paralelo com o sonho de “ser campeão”. Quantos possíveis astros (do futebol, da música, da medicina, da economia, etc) estão fora do jogo depois de cruzar com o caminho de um Fletcher?

    EXISTE UM LIMITE ENTRE SER “FODA” E SER VOCÊ MESMO

    Não há nada de errado em querer ser “o melhor”. Querer superar limites. Não há equívoco buscar nossos sonhos e colocar metas audaciosas para nossa vida. A nossa evolução pessoal (mente, corpo e espírito) depende da vontade de querermos ser melhores.

    O erro acontece quando sacrificamos nossa integridade e relações como uma moeda de troca do nosso sonho.

    [Mini-spoiler aqui] Neiman coloca sua vida em risco para provar à Fletcher que é capaz. Um acidente de carro não o impede de tocar em uma competição, que acaba virando uma verdadeira tragédia.

    Ser nós mesmos é muito melhor do que sermos Fletcher e Neiman. Buscar uma vida de equilíbrio entre realização e bem estar parece ser muito mais do que fundamental em uma sociedade cada vez mais “doente” pelo sucesso e pela vitória.

    Whiplash cria um cenário onde triunfar parece ser o único caminho possível. Muito além da ficção de um estúdio de cinema, quais são os personagens que estamos desenhando para nossas próprias vidas?

  • Customer Development: um guia de validação de negócios inovadores

    Customer Development: um guia de validação de negócios inovadores

    Não cometa o meu erro!

    Eu também já acreditei na história de que para construir uma startup bastava uma ideia genial: em poucos anos os primeiros milhões apareceriam. Não caia nessa lorota!

    Esqueça o escritório com puffs e paredes coloridas. Construir uma startup é muito mais ralação e trabalho sujo do que muitos imaginam. Prepare-se para gastar muita sola de sapato!

    Muito da minha visão mudou depois de eu viver a jornada de construção de 2 startups (com alguns pontos altos e muitos baixos) em 5 anos e gerenciar um programa regional de desenvolvimento de startups digitais, o STARTUP-SP do SEBRAE-SP. 

    Depois de me envolver diretamente na jornada de validação e desenvolvimento de 9 startups nos últimos meses, resolvi compartilhar a minha visão (e experiência) com o CUSTOMER DEVELOPMENT, conceito que considero indispensável no desenvolvimento de startups.

    Nada de receita de bolo e fórmulas mágicas! Bora lá?

    O CUSTOMER DEVELOPMENT

    Eu não inventei nada! 

    Apesar de ter adaptado (e ainda adapto) muito da metodologia à minha realidade e à realidade das startups que me envolvo, o CUSTOMER DEVELOPMENT (ou DESENVOLVIMENTO DE CLIENTES) é um conceito criado pelo genial Steve Blank, um dos nomes mais influentes do Vale do Silício.

    Blank parte do pressuposto de que as empresas (e startups, principalmente) são eficazes e até mesmo eficientes para desenvolver bons produtos. O problema é que não investem o mesmo tempo e esforço no desenvolvimento do seu mercado e entendimento dos seus clientes.

    O resultado é, muitas vezes, ótimos produtos que nunca encontram clientes. 

    “Repetidamente, as startups põem foco na primeira entrega do produto ao mercado e, somente depois que o produto está disponível, percebem que os clientes não se comportam como o esperado”. (Steve Blank)

    Ou seja, os primeiros milhões nunca serão tão fáceis quanto previsto no seu plano de negócios.

    UMA NOVA FILOSOFIA

    A principal quebra de paradigma do CUSTOMER DEVELOPMENT é acoplar ao desenvolvimento de produtos um novo processo de desenvolvimento de clientes.

    Isso significa que a equipe inicial de qualquer startup deve utilizar seu tempo e esforço (sempre muito raros) na compreensão dos problemas, necessidades e comportamento dos consumidores ao mesmo tempo que desenvolvem o seu produto principal.

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    A metodologia é composta pelas quatro fases acima, onde muitas vezes a equipe da startup passa várias vezes por cada uma delas, principalmente as primeiras. Em cada etapa, uma série de outros processos e entregáveis é exigido para que a equipe possa avançar.

    Vamos para cada uma delas?

    DESCOBERTA DO CLIENTE

    A etapa de Descoberta do Cliente procura transformar as hipóteses iniciais sobre o tripé problema, produto e modelo de negócios em afirmações reais.O objetivo é que a equipe saia desta etapa conhecendo o seu cliente (na rua) e entendendo os problemas e necessidades de solução que os mesmos enfrentam na prática. 

    O passo inicial da Descoberta do Cliente é detalhar as hipóteses sobre o produto, problema, segmento de clientes e proposta de valor que estão na cabeça dos fundadores. Essa visão é o pontapé inicial da startup.

    Em seguida, a equipe testa todas as hipóteses com quem vai realmente pagar a conta: os clientes. Essa fase se dá obrigatoriamente fora do prédio, pois é o momento de ouvir os clientes e entender se as suposições iniciais da equipe estão corretas.

    Após ouvir um número considerável de clientes e apresentar as suposições de problema e produto, a equipe pode fazer uma verificação de realidade: conhecemos o problema dos clientes e temos condições de entregar uma solução pela qual estão dispostos à pagar?

    Esta é a pergunta de outro de qualquer startup! Os clientes inovadores e pioneiros irão provar essa tese na etapa seguinte. 

    VALIDAÇÃO PELO CLIENTE

    A Validação pelo Cliente é a prova de fogo! Nesta etapa, a equipe da startup já possui um produto mínimo (MVP) a ser entregue aos clientes inovadores e pioneiros que assinarão os primeiros cheques. 

    Esta etapa prova que a sua startup encontrou um segmento de clientes que estão dispostos a pagar pelo produto para solucionarem seus problemas. Esta é a importância de encontrar um problema real para ser solucionado. 

    Os primeiros clientes (inovadores e pioneiros) serão a fonte dos principais feedbacks sobre o produto e a aplicabilidade do mesmo na solução do seu problema. Além disso, esses clientes provam que a sua empresa encontrou um canal de vendas eficiente e replicável para as próximas etapas.

    A Validação pelo Cliente prova o modelo de negócios da startup, já que os primeiros clientes acabam de ser tornar realidade. Ao final desta etapa, a startup está pronta para entrar na pista de alta velocidade. 

    GERAÇÃO DE DEMANDA

    A Geração de Demanda é o momento do crescimento da startup!

    Após as vendas iniciais para os primeiros clientes, a equipe da startup precisa provar que é capaz de replicar o processo de vendas ao mesmo tempo que mantém o nível de entrega do produto para a solução dos problemas dos clientes.

    Após a validação inicial, a startup possui condições de escalar receitas com riscos muito menores atrelados ao negócio, já que as hipóteses de crescimento e entrega de valor para os clientes não são apenas suposições iniciais, e sim afirmações reais!

    A aceleração prematura das startups e o anseio de escalar as vendas com muita velocidade geralmente são acompanhadas de grandes fracassos. É importante ter muita certeza das duas primeiras etapas antes de entrar na geração de demanda.

    ESTRUTURAÇÃO DO NEGÓCIO

    A Estruturação do Negócio é a transição de uma equipe informal de uma startup para uma empresa de verdade. Neste momento, a startup se prepara para conduzir sua estrutura para uma organização robusta e crescimento da equipe.

    Relembre aqui as fases do BLITZCALING.

    O grande desafio é chegar nesta etapa com as suposições iniciais validadas ou ter pivotado de maneira eficaz durante o processo, já que a estruturação do negócio é um “caminho sem volta”.

    Um dos grandes erros de qualquer startup é tentar escalar o negócio investindo grandes quantidades de recurso e tempo em marketing e vendas sem antes validar as suposições iniciais do negócio. 

    Por isso, sempre digo aos empreendedores que me envolvo que o melhor tempo investido é com o seu cliente, fora do prédio e gastando sola de sapato! Conheça a rotina do cliente, sinta a dor na pele e seja empático para pensar na solução. Ótimas respostas virão!

    Já teve alguma experiência com o CUSTOMER DEVELOPMENT ou viveu alguma jornada de validação de startup? Compartilhe comigo =D

  • Blitzscaling: como startups (realmente) escalam?

    Blitzscaling: como startups (realmente) escalam?

    Comece um negócio, chame ele de “startup”, use umas roupas descoladas, compre uns puffs coloridos para colocar no seu escritório 3m por 3m e junte uma grana para conhecer o Vale do Silício. BOOM, a mágica está feita!

    Esta é a fórmula barata vendida pelos gurus na internet.

    Muita coisa acontece no backoffice da construção de um grande negócio. E acredite: muita gente que nem sabe o que é uma startup vai te falar uns termos bonitos em inglês e até vender te vender uns livros. Balela!

    Existe uma ciência por trás da construção de um negócio que cresce de forma exponencial: o Blitzcaling. Sem fórmulas mágicas ou “fique rico em 90 dias”. O conceito surgiu com um cara que ajudou a fundar o PayPal, co-fundou o Linkedin e foi um dos primeiros investidores do Facebook. Pegue um café e venha comigo e Reid Hoffman.

    A guerra-relâmpago (ou: Blitzkrieg)

    O termo Blitzkrieg se refere a uma estratégia militar que utiliza forças móveis e extremamente enxutas para operar ataques surpresas em um espaço de tempo muito curto. O objetivo é atuar no timing correto para que a força inimiga não tenha tempo de reação.

    Cravado durante a Segunda Guerra Mundial, a estratégia consistia fazer os comboios carregarem somente os equipamentos necessários e se movimentarwm em uma velocidade muito grande para surpreender os inimigos e aniquilar a batalha antes mesmo de começar.

    O termo Blitzcaling adota uma postura próxima: proporcionar crescimento extremamente veloz para startups em comparação com as técnicas racionais de gestão.

    ” Blitzscaling é o que você faz quando precisa crescer muito, muito rapidamente. É a ciência e a arte de construir rapidamente uma empresa para atender a um mercado grande e geralmente global, com o objetivo de se tornar o pioneiro em escala. Este é empreendedorismo de alto impacto” (Reid Hoffman)

    Estamos na era da organização exponencial. Abra esse link em uma nova aba para ler no final.

    Blitzcaling (ou: como escalar sua startup)

    O grande erro das startups que falham no início da operação é gastar energia e recursos desenvolvendo soluções com foco no problema errado. Ou melhor: “desenvolvi um excelente produto que as pessoas não precisam”.

    Quando conseguem encontrar um PMV (Product Market Fit) ideal (ou seja: desenvolver uma solução para um segmento de cliente que possui um problema claro), as startups focam os próximos passos no ganho de escala de duas grandezas: escala da base de clientes e escala da receita.

    A maioria das startups, porém, que entra em ritmo de tração deixa de investir energia na escala de um outro ativo extremamente importante: capacidade organizacional.

    É aqui que o Blitzcaling entra: um modelo que entende o crescimento de uma startup em cinco etapas, com características e funções diferentes entre si: família, tribo, vila, cidade e nação.

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    FAMÍLIA (Produtos e Pessoas)

    A primeira fase do Blitzcaling possui como foco encontrar uma oportunidade de mercado na qual a equipe tenha uma vantagem competitiva clara. Encontrar um problema para resolver não é tão simples quanto parece, e este deve ser exatamente o foco desta etapa.

    Enquanto está no estágio de FAMÍLIA, a equipe deve começar o desenvolvimento do produto tendo em vista uma proposta de valor extremamente clara para um segmento de clientes que demonstra um problema real.

    É óbvio que nenhuma startup começa crescendo e escalando no primeiro dia de vida. Portanto, neste estágio é permitido (e recomendado) fazer coisas não escaláveis para provar com o menor custo e esforço possível se o problema identificado é algo que vale a pena ser trabalhado.

    “Não se preocupe com a estratégia aqui. Seja qual for a estratégia, vai ter que mudar de qualquer maneira” (Reid Hoffman)

    A equipe deve, nesta etapa, encontrar o Product Market Fit ideal e começar a formação do time contratando as primeiras pessoas, pensando em complementariedade. John Lilly, sócio da Greylock resume esta etapa em uma frase: “produto, produto, produto, pessoas, pessoas, pessoas”.

    TRIBO (Ganho de Mercado)

    Que comecem os jogos. A fase de TRIBO se resume na execução e ajuste da proposta de valor ao mercado. Nesta etapa, o time começa a crescer em funções operacionais para permitir velocidade no desenvolvimento do produto.

    Este é um excelente momento para começar a pensar em estratégias de financiamento do crescimento, pois já existe validação da proposta de valor para o segmento de clientes identificado. O financiamento pode acontecer via capital de risco ou receita operacional da empresa.

    “O principal componente dessa fase é ser capaz de se mover muito, muito rapidamente” (Allen Blue)

    A equipe deve montar um plano para garantir movimentação em uma velocidade maior do que potenciais concorrentes que começarem a aparecer.

    Mesmo o foco sendo aumentar a base de clientes e receita, a startup ainda não está em escala. Por isso, pode ser uma estratégia do time deixar o negócio operar em regime de queima de caixa para proporcionar o crescimento esperado.

    VILA (Momento da Escala)

    Este é momento da primeira grande certeza na startup que acontece após a validação do problema, produto e modelo de negócio: “temos um negócio global”. O foco, agora, deve ser em encontrar a melhor estratégia possível para ganho de escala.

    É importante ter clareza sobre o posicionamento em relação a concorrência, pois isso ajudará a entender o melhor momento de escalar o negócio.

    Neste estágio, o negócio já passa de 150 pessoas, portanto é importante investir em manutenção da cultura organizacional da empresa. Além disso, é preciso escalar o ritmo das operações, focando em qualidade de atendimento ao cliente e otimização do desenvolvimento de produto.

    CIDADE (Eficiência e Velocidade)

    A quarta etapa do Blitzcaling se resume em melhorar a eficiência da organização como um todo. Até este momento, é aceitável fazer “o trabalho sujo” para permitir o negócio ganhar escala em pouco termo. A partir de agora, a eficiência é nova regra.

    “Você também precisa ter uma confiabilidade muito maior; às vezes, a ineficiência que você aceitou ao passar da fase da aldeia não é mais sustentável em escala maior” (Reid Hoffman)

    O foco é otimizar (ou recriar totalmente) os processos da organização para garantir desburocratização e manutenção da velocidade de crescimento da empresa. Nesta etapa, pode ser que a empresa tenha diversificado (ou comece a diversificar) os produtos e pulverizar sua receita (assim como Google Adwords ou o Pacote Office).

    Na fase de CIDADE, o negócio tomou uma proporção de organização e cara de empresa. Provavelmente, neste estágio, o negócio passe de 1.000 colaboradores e o impacto da organização começa a ser global.

    NAÇÃO (Visão Global)

    O último estágio do Blitzcaling é o maior desafio das startups que chegam no topo: manter o crescimento com cara de startup. O negócio passa a ser global, tanto em impacto a clientes quanto em distribuição geográfica da equipe.

    O desafio é fazer escalar não somente a capacidade organizacional e de produtos, mas também a cultura da startup. A linha diversificada de produtos e a distribuição global fazem com que a organização tenha que focar em uma estratégia extremamente consolidada, porém, flexível.

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    “Referência” sim, “fórmula” nunca

    A Amazon possui mais de 150.000 funcionários espalhados pelo mundo. Google possui mais de 60.000 colaboradores. Junto com Uber, Netflix, Spotify, entre outras, elas moldam a rotina de milhões de pessoas no mundo todo diariamente.

    O Blitzcaling é o modelo que explica o crescimento dessas e de outras dezenas de startups que alcançaram o patamar global e conseguiram manter o ritmo de crescimento e cultura de startup. Porém, está longe de ser uma fórmula mágica de construção de um negócio milionário.

    Diferente do que muitos livros de “6 passos para ficar rico” dizem, construir um negócio global envolve muita ciência e dedicação. Tenha um problema real para trabalhar e reúna uma equipe de alta performance com foco global. Em resumo, o Blitzcaling é isso: construir negócios globais em alta velocidade.